Conheci Simón Hernández Ortiz há alguns anos, quando colaborei com uma dramaturgia que ele construía junto a outras masculinidades trans na Colômbia. Falávamos da arte e da possibilidade de construir outras representações sobre nossos corpos.
Voltei a falar com ele agora, depois da mudança de governo na Colômbia. Um governo de direita assumiu o poder e, quase imediatamente, o país também foi atravessado por um terremoto. Dois acontecimentos que revelam uma mesma pergunta: quem é protegido quando um país fala em segurança e quem precisa construir suas próprias formas de sobrevivência quando as instituições públicas falham?
Para Simón, a mudança política não é uma discussão distante. Ela modifica a maneira como ele sai de casa, trabalha e pensa sobre sua própria existência.

Ele me contou que hoje sente mais medo de andar pela rua. Há pouco tempo, um homem começou a gritar com ele: “que nojo dos gays, quero que matem todos eles”. Simón não respondeu. Apenas acelerou o passo, porque sabia que aquela situação poderia terminar em agressão.
Quando uma pessoa precisa calcular a velocidade com que caminha para chegar viva em casa, o debate sobre segurança já está acontecendo dentro do seu corpo.
O novo governo recoloca a segurança, a força e o controle no centro da vida pública. A discussão sobre o porte de armas faz parte desse cenário, mas o que interessa é pensar o que significa falar em segurança em uma sociedade onde ainda existem pessoas que acreditam que determinadas vidas são menos dignas de existir.
Simón conhece essa realidade porque trabalha dentro do sistema penitenciário da Colômbia. Ele chegou a esse espaço graças a outro homem trans que já trabalhava na instituição e conhecia seu trabalho. Entrar em uma instituição tão rígida significou comprovar que é possível ocupar lugares historicamente não pensados para nossos corpos.
Mas entrar não é ser reconhecido. Dentro das prisões, Simón encontrou homens trans que ainda não conseguiram alterar legalmente seus nomes e continuam sendo chamados por seus nomes anteriores. Encontrou pessoas com dificuldades para acessar visitas conjugais, atividades culturais e esportivas, medicamentos e atendimento de saúde. Em algumas prisões, parte do pessoal administrativo havia recebido formação sobre gênero e conseguia respeitar o nome e os pronomes das pessoas. Entre os agentes responsáveis pela custódia, porém, a realidade é outra.
É uma contradição que diz muito sobre a relação entre Estado e a população trans: uma instituição pode reconhecer uma identidade em uma lei e, ao mesmo tempo, continuar produzindo mecanismos cotidianos de apagamento.
Criação de redes comunitárias na Colômbia
Em uma emergência como no caso do terremoto, costuma-se imaginar que a resposta institucional alcançará todas as pessoas da mesma maneira. Mas não é assim. Pessoas trans em zonas rurais, pessoas com deficiência e pessoas desempregadas por toda Colômbia enfrentaram dificuldades concretas. Diante da falta de respostas específicas, coletivos trans e maricas organizaram redes próprias de ajuda.
A Esquirla: Colectiva Maricona Transdisciplinar abriu um formulário para identificar necessidades e responder com os recursos disponíveis. O Coletivo MOR (uma forma carinhosa de tratamento entre pessoas trans e maricas, uma abreviação afetiva de “amor”), e a Plataforma de la Ley Integral Trans também participaram.
Quando o Estado entra em crise, quem já aprendeu a sobreviver cria suas próprias redes. Não para substituir as instituições, mas porque esperar pode significar deixar alguém sem comida, medicamento, abrigo ou proteção.
“Solo entre trans y marikas podemos darnos la mano, porque para la institucionalidad no existimos o nos morimos todes en el terremoto” — (“Só entre trans e marikas podemos dar as mãos, porque, para as instituições, não existimos ou morremos todos no terremoto”), comenta Simón.
Não só na Colômbia, as pessoas trans latino-americanas conhecem essa distância entre o direito escrito e a vida cotidiana. Podemos ter documentos que reconhecem nossa identidade e ainda encontrar um sistema de saúde que não sabe como nos atender. Podemos ter leis que reconhecem nossos nomes e continuar sendo chamados pelo nome que já não usamos. Podemos ter políticas públicas e, ainda assim, descobrir que em uma emergência somos nós que precisamos organizar a ajuda.
Para Simón, a arte não é um complemento da luta política. É uma ferramenta para enunciar a existência: estamos aqui. Existimos. E continuaremos existindo.
Representar um corpo trans também é disputar quem tem direito a aparecer, trabalhar, amar, envelhecer, ter família e ocupar uma prisão, uma universidade, um palco ou uma rua.
Quando perguntei a Simón como passar da sobrevivência para a construção do futuro, ele disse que não se sentia em condições de responder. Por enquanto, exige aprender novas formas de sobreviver.
É importante escutar essa resposta sem obrigá-la a virar esperança. Às vezes, falar de futuro é um privilégio de quem consegue imaginar o amanhã. Para quem calcula como chegar vivo em casa, o presente já exige trabalho suficiente.
Segurança não deveria ser apenas ter mais armas ou mais controle. Deveria ser poder caminhar sem medo, entrar em um hospital e ser atendido, ter um emprego e não ser demitido por existir, ser chamado pelo próprio nome e ter onde morar.
E talvez seja essa a pergunta que permanece depois da eleição e depois do terremoto: quando falamos em segurança, estamos falando da proteção de quais vidas?
Enquanto algumas pessoas discutem como tornar um país mais seguro, outras precisam andar mais rápido para chegar vivas em casa.
E nenhuma democracia deveria considerar isso normal.