O gás lacrimogêneo entrava pelas janelas do prédio, no centro de La Paz. Do lado de fora, manifestantes e policiais se enfrentavam em mais um dia do conflito que paralisava a Bolívia há semanas. Jessica Velarde observava a cena de seu apartamento, quando decidiu gravar o momento em que um grupo de mineiros derrubava um motociclista e começava a chutá-lo na cabeça, em plena rua.
Os manifestantes a viram. Exigiram que apagasse o vídeo. Ameaçaram-na.
Não importava que ela explicasse que era imprensa.
“Disseram que podiam fazer comigo o que quisessem”, recorda.
A cena resume o clima que atravessa a Bolívia. Após mais de cinquenta dias de bloqueios, confrontos e protestos, o presidente Rodrigo Paz decretou um estado de exceção por 90 dias. Enquanto governo, Central Operária Boliviana, setores camponeses e grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales disputam os rumos do país, Jessica chama atenção para outra questão: as pessoas trans do país seguem fora da conversa.
“Neste tipo de cenário político, a população trans não participa. É invisibilizada, fica fora do tabuleiro, mas certamente vive a crise na pele”, afirma.
Cineasta, ilustradora, atriz, cantora e escritora, Jessica nasceu em La Paz e pertence a uma geração que vivenciou uma das mais importantes conquistas legislativas para pessoas trans na Bolívia: a Lei de Identidade de Gênero, que acaba de completar dez anos.
A norma permitiu que centenas de pessoas trans alterassem nome, sexo e imagem em seus documentos por meio de um procedimento administrativo. Foi resultado de anos de luta de ativistas e organizações que, até então, precisavam enfrentar longos processos judiciais para obter reconhecimento legal. Mas a conquista durou pouco.
Um ano e meio depois, o Tribunal Constitucional restringiu parte dos efeitos da lei. Desde então, explica Jessica, a população trans boliviana vive uma situação paradoxal: possuem documentos de acordo com sua identidade, mas continuam enfrentando obstáculos para exercer plenamente outros direitos.
“Já se passaram quase nove anos, quatro presidências, e não existe vontade política para reverter essa situação”.
Enquanto isso, a vida cotidiana continua marcada pela precarização.
Grande parte dos tratamentos hormonais é realizada sem acompanhamento médico adequado. Procedimentos de modificação corporal costumam ocorrer em circuitos informais. Seguros de saúde não cobrem tratamentos de afirmação de gênero e o acesso ao emprego formal continua limitado.
Jessica recorda que certa vez um profissional da saúde a disse que “mulher trans e trabalhadora sexual eram sinônimos”. A lembrança não a surpreende. Segundo ela, poucas mulheres trans conseguem acessar empregos formais e muitas continuam encontrando no trabalho sexual uma das poucas alternativas possíveis de sobrevivência. E a crise atual agrava ainda mais esse cenário.
A inflação, o aumento do custo de vida, a escassez de produtos básicos e a incerteza política atingem com mais força quem já vivia à margem. Para maioria das pessoas trans, a diferença entre uma crise econômica e uma crise política praticamente não existe: ambas acabam se expressando na mesa vazia, na falta de medicamentos ou na impossibilidade de pagar o aluguel.
“Uma mulher trans que não tem renda passa fome. Uma mulher trans que adoece não consegue acessar um serviço de saúde”, explica.

A crise na Bolívia
O medo também cresce diante da militarização. Jessica lembra das histórias de violência sofridas por pessoas trans durante as ditaduras militares das décadas de 1970 e 1980, o que a faz observar com preocupação qualquer ampliação dos poderes das forças de segurança.
Em paralelo, o mapa político latino-americano continua se deslocando para a direita. O Peru acaba de eleger Keiko Fujimori como presidenta e a Colômbia o ultradireitista Abelardo de la Espriella. Na Bolívia, a polarização entre governo e oposição ocupa todo o espaço público, enquanto as demandas históricas da população trans seguem sem respostas.
“A Assembleia Legislativa aprova ou revoga leis rapidamente quando existem interesses políticos ou econômicos. Mas em quase nove anos não moveu um dedo por uma Lei Integral Trans”.
A frustração convive com um sentimento compartilhado por muitas pessoas bolivianas: a ideia de partir. Jessica reconhece que já pensou em emigrar, já até viveu e estudou em outros países. No entanto, também sabe que a possibilidade de ir embora é um privilégio inacessível para grande parte da população LGBTIQ+.
“Nem toda pessoa pode ir embora. Muitas precisam permanecer e enfrentar essa realidade todos os dias”.
Talvez por isso ela insista em algo que considera fundamental: que a Bolívia seja ouvida.
“A Bolívia é um país esquecido, inclusive para a América Latina. Ninguém sabe o que acontece aqui.”
Enquanto as estradas continuam bloqueadas, os preços aumentam e o país atravessa um dos momentos mais tensos dos últimos anos, Jessica retorna repetidamente à mesma ideia.
As crises políticas nunca afetam todas as pessoas da mesma forma.
E quando o conflito ocupa o centro da cena, quem já vivia à margem costuma ser o primeiro a ficar sozinho.