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Moda, justiça e travestilidade: O protagonismo do Ateliê TRANSmoras

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A roupa, a moda, é ferramenta de afirmação, existência e resistência. É um dos primeiros espaços onde se encarna o direito de ser. Em termos simples, a roupa ainda é um dos principais marcadores de gênero na sociedade em que vivemos. Mas o que acontece quando rasgamos essa roupa e a transformamos em algo novo? Uma roupa sem gênero, por exemplo?

Para estilista Vicenta Perrotta, esse gesto é mais do que simbólico — é profundamente político. “É um desamarrar de si, mas também um arregaçar com todas as questões políticas, sociais, higienistas, racistas e transfóbicas”, afirma. Essa é a base do Ateliê TRANSmoras, fundado por Vicenta em 2013. No espaço, a roupa não é apenas estética: é linguagem, disputa simbólica e ferramenta de transformação social — especialmente para pessoas trans e travestis.

“Sempre foi um desejo meu como estilista, entender o processo das pessoas que não tem herança e construir um processo de autonomia e as pessoas trans tem esse lugar social jogado pro lugar de autonomia”, conta a estilista, que buscou conectar todas essas questões com o empreendedorismo, um eixo central para o Ateliê, e um grande fator de exclusão para corpos trans.  

A emergência de ter um espaço que coubesse todas essas questões também se mostraram necessárias, e a partir de um espaço já ocupado na Unicamp, nasce a estrutura do Ateliê, o que motivou pessoas trans a frequentarem o espaço, principalmente corpos que não estudavam na Universidade. E com este acesso em outro lugar, o Ateliê começa a ocupar uma posição de advocacy, ao pautar as cotas na Unicamp, aprovada no começo desse ano. 

Desde sua fundação, o Ateliê TRANSmoras se propôs a ser mais do que um espaço de criação de roupas. Tornou-se um território de afirmação, inclusão, articulação política e produção de saberes decoloniais a partir das travestilidades.

Foto: Vincent Catalla

Moda e exclusão: quem está nas vitrines?

A indústria têxtil e de confecção é uma das mais robustas do país. Segundo dados da ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), o setor movimenta mais de R$ 200 bilhões por ano, com projeção de chegar a R$ 1 trilhão em 2025.

Apesar disso, ainda são raras — e quase invisíveis — as presenças de pessoas trans e travestis nas lojas, nas passarelas ou nos bastidores da moda. Quantos estilistas, costureiras, vendedoras ou modelos trans você conhece?

Essa ausência escancara uma exclusão estrutural e histórica, que não se limita à empregabilidade. A indústria da moda também está no centro de outra crise: a ambiental. É responsável por 8% das emissões globais de CO₂ e por 35% dos microplásticos despejados nos oceanos, segundo estudos internacionais.

Moda Sustentável e Corpos Dissidentes

Diante de um cenário excludente e insustentável, emergem alternativas. Uma delas é protagonizada por corpos dissidentes e saberes decoloniais, como é o caso do Ateliê TRANSmoras. Com sede em Campinas (SP), o projeto une moda, sustentabilidade e justiça social com uma abordagem única.

Vicenta propõe o conceito de Transmutação Têxtil, que ela define como uma tecnologia decolonial. Trata-se de reaproveitar tecidos, transformar materiais e ressignificar peças, criando novas roupas e objetos com menor impacto ambiental e forte potência simbólica.

Além da sustentabilidade, a prática promove inclusão social e geração de renda, abrindo caminhos de profissionalização para pessoas trans, travestis e outros grupos marginalizados.

Moda, justiça e travestilidade: O protagonismo do Ateliê TRANSmoras
Foto: Rafaela Kennedy

O Ateliê TRANSmoras na prática

A atuação do Ateliê vai muito além das roupas. O coletivo realiza oficinas, desfiles, rodas de conversa, ações formativas e articulações políticas, fortalecendo o protagonismo de pessoas trans e travestis e desafiando a lógica da moda tradicional.

Um dos projetos em curso é o programa “Direitos, Renda e Vida”, voltado à inclusão produtiva e cidadã de pessoas trans, travestis, mulheres negras, indígenas e migrantes, que está com inscrições abertas para etapa presencial do curso “Corte, costura e criação em transmutação têxtil” até 28 de junho. A iniciativa oferece formações gratuitas em moda, sustentabilidade, cultura e direitos sociais. O programa oferece auxílio transporte e um capital semente como investimento no projeto das pessoas participantes.

Ao todo, serão selecionadas 20 pessoas, seguindo princípios de equidade, diversidade e acesso que norteiam as ações do Ateliê. O edital completo, com os critérios de seleção, está disponível aqui.

A formação começa em agosto e tem duração de três meses, com aulas presenciais às terças e quartas-feiras, das 18h às 21h30, na Casa do Povo, em São Paulo. Também haverá ateliês abertos às quintas-feiras, das 15h às 18h, voltados ao aprofundamento prático. A disponibilidade para frequentar as aulas e participar de todo o ciclo formativo, incluindo atividades complementares e a apresentação final, será um dos critérios de seleção.

O percurso formativo do projeto é amplo e estruturado em várias frentes:

  • Formação online certificada
  • Cursos presenciais em São Paulo e Campinas
  • Oficinas práticas e ateliês abertos
  • Rodas de conversa, visitas culturais e mentorias
  • Formação teórica em justiça social, decolonialidade e clima

A proposta é abordar de forma crítica e interseccional os desafios enfrentados pelas populações trans, negras, indígenas e periféricas — os sujeitos historicamente colocados como “Outros” nas sociedades ocidentais.

Temas centrais abordados nas formações:

  • Direitos e Autonomia: Acesso, cidadania e políticas trans no Brasil
  • Justiça Social e Ambiental: Relações entre gênero, clima e vulnerabilidade social
  • Cultura e Educação: Inserção de pessoas trans em instituições e práticas pedagógicas críticas
  • Filantropia e Sustentabilidade: Estratégias de financiamento e sustentabilidade para iniciativas trans
  • Comunicação e Narrativas: Produção de discursos e narrativas contra-hegemônicas

“Já temos um grande impacto na moda brasileira, construímos uma tecnologia que é replicada em vários lugares do Brasil. Centro cultural, Sesc e outros espaços têm contratado pessoas trans para fazerem Ateliês. O que fazemos é um projeto de direitos humanos” afirma a estilista Vicenta Perrota.

Serviço

Quer participar das formações?

As inscrições para os cursos “Corte, costura e criação em transmutação têxtil” estão abertas até 28 de junho! Para se inscrever acesse o link da bio do perfil @trasatelietransmoras

O resultado será divulgado em 31 de julho.

Público prioritário:

Serão selecionadas 20 participantes entre:

  • Pessoas trans, travestis e não-binárias
  • Mulheres negras, indígenas e migrantes
  • Moradoras de territórios periféricos
  • Pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica

💸 Auxílios Oferecidos

  • Auxílio Transporte: R$ 120,00 por mês para todas as participantes
  • Capital Semente: R$ 2.400,00 para 4 pessoas da cidade de São Paulo investirem em seus projetos ao final da formação

 Turmas Presenciais

📍 São Paulo

  • Local: Casa do Povo
  • Início das aulas: 5 de agosto
  • Dias: Terças e Quartas

Horário: 18h às 21h30

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