Em mais um ano eleitoral, a circulação de conteúdos falsos, enganosos e descontextualizados se intensificou nas grandes plataformas digitais. Nesse cenário, a população trans volta ao centro da guerra de narrativas, tornando-se um dos principais alvos do debate político e da desinformação – processo que não apenas distorce a discussão pública sobre direitos fundamentais, como também instrumentaliza a existência de minorias para inflamar polarizações e captar votos.
A disseminação de informações falsas e a violência política não são fenômenos isolados. Também não é de hoje que a nossa população é sistematicamente atacada por conteúdos que voltam a circular – ou ganham novas formas – a cada pleito. Da “mamadeira de piroca”, em 2018, às peças de desinformação contra Erika Hilton após sua eleição para a presidência da Comissão da Mulher, em 2026, diferentes episódios mostram como o pânico moral em torno de gênero e sexualidade é mobilizado no debate político, atingindo candidaturas e lideranças e contribuindo para reduzir a nossa presença nos espaços de poder e nos empurrar para as margens do debate democrático.
São muitos os conteúdos produzidos para alimentar o pânico moral em torno de corpos e existências trans. Por isso, a Transmídia verificou cinco mentiras que ganharam tração nas redes sociais durante as eleições de 2026:
1. “Ideologia de gênero” nas escolas

Diversas candidaturas têm utilizado em suas campanhas eleitorais a promessa de combater uma suposta “ideologia de gênero” nas escolas e universidades, difundindo a falsa ideia de que existiria uma doutrina sendo promovida pelo sistema educacional brasileiro e que ela representaria um “perigo” para as crianças. A alegação é falsa.
A expressão “ideologia de gênero” não corresponde a uma política educacional ou a uma doutrina adotada pelo sistema de ensino brasileiro. O que existe são políticas e diretrizes voltadas ao combate à discriminação, ao bullying e à violência de gênero.
Em 2026, por exemplo, os Ministérios da Educação (MEC) e das Mulheres assinaram a portaria de regulamentação da Lei Maria da Penha Vai à Escola (nº 14.164/2021), para incluir conteúdo sobre a prevenção a todas as formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres nos currículos da educação básica.
Fontes de verificação:
- Ministério da Educação
- Supremo Tribunal Federal – (ADI) 5668
2. Obrigatoriedade de “banheiros unissex”

Em correntes de mensagem ou em vídeos manipulados, circulam conteúdos falsos sobre leis que vão obrigar estabelecimentos comerciais e escolas a extinguir os banheiros femininos para criar “banheiros unissex obrigatórios”, sugerindo riscos à segurança e episódios de assédio. Esse tipo de desinformação já havia sido desmentida em anos anteriores e continua sendo falsa, além de distorcer discussões regulatórias.
Não há legislação federal que exija o fim dos banheiros divididos por sexo/gênero. As discussões jurídicas e regulatórias sobre o tema envolvem o direito de pessoas trans ao uso de banheiros de acordo com sua identidade de gênero e propostas de criação de cabines individuais ou neutras de uso facultativo, medidas que não implicam a extinção dos banheiros existentes.
- Fontes de verificação:
3. Vídeos manipulados e ataques contra Erika Hilton

Mais uma vez, a deputada federal Erika Hilton (PSOL) foi alvo de uma série de conteúdos manipulados nas redes sociais. De postagens ofensivas após ser eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados até ser chamada de “travesti do Lula” pelo vereador e candidato Lucas Pavanato (PL) durante a corrida eleitoral.
Entre as desinformações propagadas, destacou-se um suposto projeto de lei que daria isenção na conta de luz para pessoas LGBT+. O conteúdo distorce uma proposta da qual a parlamentar é relatora (PL 1182/2023), que prevê desconto nas tarifas de energia elétrica para abrigos que acolhem pessoas LGBTQIAP+ em situação de vulnerabilidade social.
Episódios como esses mostram como a desinformação associada à transfobia atravessa a corrida eleitoral, utilizando a imagem de candidaturas trans para influenciar a percepção do público e desqualificar sua atuação política.
- Fontes de verificação:
4. “Em defesa das crianças”

Políticos e candidatos têm transformado a pauta da infância em alvo de campanhas eleitorais sob o discurso da “proteção das crianças”, apresentando a existência de pessoas trans como uma ameaça. Nesse contexto, circulam com frequência conteúdos falsos afirmando que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais estariam promovendo a “hormonização de crianças” com estrogênio ou testosterona pelo SUS. A alegação é falsa e distorce a realidade do atendimento à população trans e os protocolos médicos vigentes no país.
Enquanto correntes enganosas propagam pânico moral, a população trans no Brasil enfrenta barreiras históricas e desigualdades no acesso à saúde pública. Estudos apontam problemas como longas filas de espera para procedimentos pelo SUS, desigualdade regional na oferta de serviços especializados, despreparo de profissionais e experiências de discriminação nos serviços de saúde.
Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Epidemiologia, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), com 1.317 mulheres trans e travestis de cinco capitais brasileiras, mostrou que, entre aquelas que faziam uso de hormônios e informaram como os obtiveram, 72,6% utilizavam medicamentos sem prescrição médica. Entre os fatores associados estão as dificuldades de acesso a médicos e à assistência especializada e o receio de sofrer discriminação.
Além disso, barreiras nos sistemas de informação do SUS e dificuldades no atendimento adequado às especificidades de pessoas trans também têm sido objeto de decisões judiciais, como a ADPF 787, que determinou mudanças para garantir acesso à saúde sem discriminação.
- Fontes de verificação:
- Abrasco: 72% das mulheres trans e travestis usam hormônios sem prescrição, destaca a farmacêutica e professora do ICTQ, Alícia Krüger
- Artigo científico: Avanços e desafios no processo transexualizador no Sistema Único de Saúde brasileiro
- ADPF 787: Omissão da União em assegurar acesso adequado à saúde para pessoas transexuais e travestis
5. “Cotas falsas” e fraude em candidaturas trans nas eleições

Em junho, a associação Mátria, conhecida por atuar contra direitos da população trans no Brasil e no exterior, entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para impedir que mulheres trans sejam consideradas na cota mínima de 30% de candidaturas femininas nas eleições de 2026. O caso foi acompanhado pela propagação de montagens afirmando que candidaturas estariam “fingindo ser trans”, sem qualquer fiscalização da Justiça Eleitoral, apenas para fraudar a cota de gênero e acessar recursos do Fundo Eleitoral. Esse tipo de conteúdo associa a participação política de pessoas trans à prática de fraude eleitoral e contribui para deslegitimar essas candidaturas.
Em 2018, os ministros do STF decidiram que a expressão “cada sexo”, presente no artigo 10 da Lei das Eleições, deve ser interpretada de acordo com a identidade de gênero declarada pela pessoa candidata. Desde então, candidaturas de mulheres trans são contabilizadas para o preenchimento da cota mínima feminina e para a distribuição proporcional de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).
Desde 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que a expressão “cada sexo”, presente no artigo 10 da Lei das Eleições, seja interpretada de acordo com o gênero da pessoa candidata. Com a decisão, mulheres trans e travestis podem ser contabilizadas para o preenchimento da cota mínima feminina, conforme sua identidade de gênero registrada na Justiça Eleitoral.
Além disso, a Justiça Eleitoral já possui mecanismos para investigar e punir fraudes à cota de gênero. A Súmula nº 73 do TSE estabelece critérios para identificar candidaturas fraudulentas, considerando elementos como votação zerada ou inexpressiva, prestação de contas sem movimentação financeira relevante e ausência de atos efetivos de campanha. Quando comprovada, a fraude pode resultar em cassação de diplomas, inelegibilidade de quem praticou ou anuiu com a conduta e anulação dos votos obtidos pelo partido.
- Fontes de verificação:
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE): Súmula 73 e jurisprudência sobre combate à fraude na cota de gênero
- Congresso em Foco: ONG aciona STF contra inclusão de trans na cota eleitoral feminina
A checagem rigorosa dos fatos é uma ferramenta essencial para reduzir o impacto da desinformação no processo democrático. Um debate público baseado em dados oficiais, na legislação vigente e em direitos fundamentais é indispensável para que cada pessoa exerça seu voto de forma consciente e informada.
Para entender melhor como identificar esses discursos, proteger-se de narrativas enganosas e navegar com mais segurança pelas redes durante o período eleitoral, confira a nossa Cartilha de Combate à Desinformação nas Eleições.