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Quem pode ocupar a cultura? Recuos institucionais e a presença trans no audiovisual brasileiro

Kika Sena em "Paloma" (Divulgação)

Nos últimos anos, pessoas trans passaram a ocupar uma posição central dentro  das disputas políticas no Brasil e no mundo. Nossas existências se tornaram alvo recorrente de ataques simbólicos,  morais e institucionais, enquanto políticas de reconhecimento e ações afirmativas  passaram a ser vistas como excessos discursivos, impasses políticos ou sinais de uma suposta crise da cultura contemporânea. Assim, nossas ausências acabam operando como moeda de negociação simbólica para diferentes campos políticos. 

O audiovisual não está isolado desse processo. Parte significativa da indústria  cultural, quando operando prioritariamente como engrenagem mercadológica, reage  diretamente às demandas neoliberais do mercado e às oscilações do debate público,  reorganizando quais corpos podem ocupar lugares de visibilidade, autoria e poder  narrativo. Assim, presenças trans são ampliadas enquanto representam valor  simbólico, engajamento ou capital cultural, mas passam a sofrer retração quando setores  conservadores intensificam ataques às nossas existências. E nossa inclusão passa a ser percebida como risco institucional, político ou comercial.

A exceção tende a surgir apenas de criadores, coletivos e projetos autorais que operam em contrafluxo a essa lógica, insistindo na construção de outras narrativas e  formas de existência dentro do audiovisual. Mas, são justamente esses projetos que costumam enfrentar maior precarização, dificuldade de financiamento e ausência de  incentivo estrutural. 

Esse recuo da indústria trata-se de uma adaptação às demandas  de um neoliberalismo que absorve identidades apenas enquanto elas são economicamente  úteis, descartando corpos dissidentes quando passam a representar risco reputacional,  conflito político ou ameaça à estabilidade dos mercados. 

Dentro da própria indústria audiovisual, esse movimento também se manifesta na  redução da presença de pessoas trans em espaços de liderança criativa e institucional.  Showrunners, roteiristas, diretores e profissionais trans seguem perdendo os poucos  espaços conquistados ao longo dos últimos anos. 

Em entrevista para o site Mundo Negro, a diretora e roteirista Luh Maza, que integrou equipes de produções como Sessão de Terapia, Os  Quatro da Candelária e Da Ponte Pra Lá, descreve a ironia no fato de plataformas de streaming serem majoritriamente dirigidas por mulheres [cis brancas] no Brasil, mas a chefia de projetos ser, por vias de regra, feita em sua maioria por homens cis brancos.

“A maioria esmagadora dos showrunners, que são os líderes criativos das séries que elas escolhem, são homens — homens brancos e cisgêneros. Até a proporção de mulheres  brancas nessa função é irrisória. Mulheres negras, nenhuma. Mulheres negras e trans,  menos ainda. Nós não temos sequer acesso real à possibilidade de contar as nossas histórias, porque os nossos projetos já chegam tortos para essas executivas”. 

Quem pode ocupar a cultura? Recuos institucionais e a presença trans no audiovisual brasileiro
Luh Maza no Roda Viva / Foto: Nadja Kouchi – Acervo TV Cultura

A observação evidencia como pessoas negras e trans seguem afastadas dos  espaços responsáveis por decidir quais histórias serão financiadas, produzidas e  distribuídas, um padrão que é refletido em toda a indústria audiovisual brasileira: seguimos quase ausentes das salas de roteiro, das direções de  grandes produções, do desenvolvimento de projetos e de cargos executivos responsáveis  por decidir quais histórias serão financiadas, produzidas e distribuídas. 

A presença trans no audiovisual

Nos últimos anos, organizações como a Associação de Profissionais Trans do  Audiovisual Brasileiro (APTA) têm produzido diagnósticos, incidência institucional e  articulações voltadas à inclusão e permanência de profissionais trans no setor,  evidenciando que a nossa ausência nos espaços de liderança e financiamento  não decorre da inexistência de profissionais qualificados, mas de mecanismos estruturais  de exclusão, tanto do mercado quanto de políticas de ação afirmativa.

Segundo a  Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Brasil permanece há 16 anos consecutivos como o país que mais assassina pessoas trans no mundo, com 105  mortes registradas em 2024.  No campo socioeconômico, apenas 12% das pessoas trans acessam o ensino  superior, enquanto a presença dessa população no mercado formal de trabalho não chega a 0,5%. Entre profissionais trans, a participação em cargos de liderança é inferior a 1%,  com rendimentos, em média, 20% menores do que os de pessoas cisgêneras. 

No audiovisual, esse cenário de exclusão se intensifica. Dados da Associação  Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA) indicam que 73% dos roteiristas trans não  obtiveram renda com escrita de roteiros ou receberam menos de um salário mínimo em  2024. Levantamento da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) aponta ainda que  pessoas trans representam apenas 0,03% dos projetos inscritos no Fundo Setorial do  Audiovisual, sem presença significativa entre os projetos contemplados. 

A cartilha da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), lançada em 2025 pelo  Ministério da Cultura (MinC), estabelece mecanismos obrigatórios de reserva de vagas para pessoas negras, indígenas e pessoas com deficiência, deixando pessoas trans fora das  políticas centrais e vinculantes de reparação e redistribuição de recurso público. De  acordo com a cartilha, pessoas trans, inseridas dentro da ampla categoria LGBTQIAPN+, aparecem apenas em mecanismos complementares, facultativos e não obrigatórios, como  possíveis critérios de pontuação adicional, bonificações ou eventuais editais específicos  definidos localmente. 

Essa distinção não é apenas técnica. Ela define quais grupos terão acesso garantido aos recursos públicos e quais permanecerão submetidos à subjetividade  das avaliações, à vontade política de estados e municípios e às dinâmicas estruturais de  exclusão já presentes no setor cultural. Bonificações, critérios de desempate e pontuações  extras não garantem que recursos públicos sejam efetivamente destinados a pessoas trans.  Sem reserva obrigatória de vagas, nossa presença continua administrada como  possibilidade opcional e não como compromisso estruturante de reparação histórica. O  resultado é a reprodução, em escala nacional, de editais estaduais e municipais que  adotam apenas os critérios mínimos obrigatórios estabelecidos pelo Ministério da Cultura, excluindo pessoas trans das políticas centrais de acesso, permanência e  distribuição de financiamento público. 

Na prática, isso faz com que o acesso de pessoas trans aos recursos públicos  permaneça mais instável e menos garantido do que o de grupos contemplados por reservas  obrigatórias, mesmo diante de indicadores que evidenciam um quadro extremo de  vulnerabilização social e econômica. Trata-se, portanto, não de contrapor políticas  afirmativas entre si, mas de afirmar que a ampliação desses mecanismos, incluindo de  forma vinculante a presença de pessoas trans, é parte necessária do aprofundamento das  próprias políticas de reparação já em curso. 

A conversa já não é mais sobre representatividade, mas sobre quem possui legitimidade para imaginar o país, construir narrativas e decidir quais existências merecem  investimento, continuidade e futuro dentro do audiovisual brasileiro.

Leia também: Geni e o Zepelim – o que não te contaram sobre o filme

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