Quando me entendi defensor de direitos socioambientais há 10 anos atrás, não o fiz por escolha, mas porque essa era a única forma na qual eu sabia existir. Lutar pela conservação dos territórios e a emancipação de nossos povos significava manter vivas todas as coisas que eu conhecia. O rio que nos alimentava, a árvore que nos protegia, o céu que nos embalava e todos os seres, visíveis e invisíveis, que estavam ao nosso redor. Se me tiram o território, tiram a minha identidade.

Costumamos entender a colonização como o processo de invasão de um território já habitado, em conjunto com a retirada da humanidade e subjugação dos povos que ali existiam. Quando os invasores chegaram em Moçambique, ali habitavam os Makua, os Tsonga, povos que cultivavam uma relação milenar com aquele chão e com as outras formas de vida que ali estavam, da mesma forma com os Kalinago no Haiti, os Kikuyu no Quênia, os Wayuu na Venezuela e os mais de mil povos que plantaram o Brasil centenas de anos antes da invasão.
O que a colonização trouxe foi muito mais que a “conquista” e dominação de uma terra, ela criou uma profunda rasura nas histórias, memórias, relações cosmológicas e modos de vida de nossos povos. Para os meus, a colonização inicia na violenta ruptura entre nós e nosso vínculo com a terra, numa tentativa de reorganizar o mundo segundo a lógica da exploração.
Assim surgiu a ideia de “desenvolvimento”, centrada a partir do pensamento de que manter uma relação harmônica com a natureza significava um tipo de atraso, uma selvageria, e que por isso precisávamos alcançar o tão desejado progresso. Nessa mesma lógica, a serviço da assimilação dos povos e da criação de um “humano único” — branco, heteronormativo, cristão, civilizado — nós, filhos das árvores, plantados como sementes, fomos dizimados.
Levaram nossas línguas, nossas casas, nossos sonhos e de muitos levaram a identidade. Nos destruíram como destruíram a natureza, porque não viam em nós qualquer valor ou, do contrário, só viam $valor$. A colonização começou a dar sentido à humanidade, isto é, decidir quem seria visto como humano e quem não. Um inferior, um bicho, uma vida sem muita importância. Até hoje, essa mesma lógica subjuga corpos e destrói territórios.
Corpo trans como território

Nego Bispo, liderança, mestre de saberes, filósofo e manejador-de-mundos oriundo do Quilombo Saco-Curtume (PI), dizia “eu não sou humano, sou quilombola”. Através dessas palavras ele reconfigura o mundo pela visão do quilombo. Assim também, indígenas e negros recontam a existência a partir de seus corpos, guardiões de cosmovisões. Fragmentos-corpos de floresta que se levantam para mostrar que nessas margens, o espaço da desumanização, é onde corre mais vida.
Para muitos de nós, pessoas trans e travestis, o corpo também é o principal território na qual temos pleno acesso. Onde conseguimos transitar, habitar e existir. É através do corpo que reconfiguramos o mundo com saberes e cosmologias deixadas por aqueles e aquelas que nos antecederam e que comungamos com o mundo que pulsa ao nosso redor. Como outro qualquer bicho, fazemos metamorfose.

Uýra, a Árvore que anda, travestí indígena do povo Munduruku, artista e bióloga, encarna uma árvore pelas ruas de Manaus reivindicando um olhar atento às cidades-florestas. Em seu projeto de vida, percorre comunidades ribeirinhas nas margens amazônicas contando as histórias dos povos das águas e das matas que ali habitam.
Através do uso de folhas, plantas, raízes e sementes, Uýra se transfigura em árvore, por vezes em pedra e também em mangue, numa incorporação da própria natureza. Assim como as benzedeiras, rezadeiras, parteiras, curandeiros e pajés, Uýra mantém em seu próprio corpo, feito de sangue e de seiva, memórias vivas de um povo que segue em resistência.
Em Soure, na ilha do Marajó, o festival Rainha das Matas busca dar visibilidade aos saberes marajoaras forjados pelas culturas indígenas e negras da região. Utilizando palhas de curuás, coqueiros e miritis – plantas amazônicas – são construídas paramentas, vestuários e ornamentos pelas mãos e sonhos de pessoas trans. Numa celebração contínua da vida, uma relação simbiótica rompe a barreira criada entre humano e natureza.
Lá, as folhas, as flores, os cipós e as penas viram indumentárias que mais parecem uma continuidade do próprio corpo, um corpo-floresta. Através dessa tecnologia (tr)ancestral perpetuam-se os saberes e cosmologias que mantém de pé aquele território, numa troca de conhecimentos entre seres humanos e não-humanos. Assim como no Marajó, em todas as regiões do país, pessoas trans e travestis estão organizadas de forma comunitária, ancestral e popular em prol da manutenção de seus territórios.

Estamos agora, no presente, rompendo com a ideia de que somos humanos e voltando a nos reconhecer enquanto a própria natureza. Da Amazônia à Caatinga, da Mata Atlântica ao Cerrado, do Pampa às cidades-dos-biomas-esquecidos, seguimos mostrando ao mundo aquilo que somos: povos que não existem sem seus territórios.