Em maio de 2024, quando as enchentes atingiram o Rio Grande do Sul, Hellen Faleiro perdeu a casa onde vivia na Ilha da Pintada, na Região Metropolitana de Porto Alegre. O que começou com uma busca por abrigo transformou-se em uma trajetória marcada por recusas e insegurança. Antes de encontrar um espaço onde pudesse permanecer com dignidade, passou por quatro abrigos, três em Guaíba e um na capital gaúcha.
A experiência de Hellen não foi um caso isolado. Durante a maior tragédia climática da história do estado, pessoas trans e travestis relataram dificuldades para acessar espaços de acolhimento, desrespeito ao nome social, restrições ao uso de banheiros conforme a identidade de gênero e situações de violência e discriminação. A enchente revelou que, para parte da população, sobreviver ao desastre também significa enfrentar barreiras impostas pela transfobia.

A trajetória de Hellen evidencia uma dimensão muitas vezes ignorada da crise climática: ela não cria, por si só, as desigualdades, mas aprofunda vulnerabilidades construídas historicamente pelo racismo, pela desigualdade social, pela exclusão territorial e pela discriminação de gênero.
É justamente dessa compreensão que surge o debate sobre justiça climática. Mais do que uma questão ambiental, a emergência climática é também um problema social e político. Seus impactos não são distribuídos de forma igual. Os riscos, os recursos para prevenção e a capacidade de reconstrução variam conforme raça, gênero, renda e território.
Quem fica fora das estatísticas?
O dossiê Racismo Ambiental e Injustiça Climática, publicado pelo Instituto Pólis, demonstra que enchentes, secas, ondas de calor e deslizamentos atingem de maneira desproporcional populações que vivem em territórios marcados pela precariedade urbana, pela ausência de infraestrutura e pelo acesso limitado a direitos básicos.
Nesse contexto, desde 1980 o conceito de racismo ambiental tornou-se fundamental para compreender como comunidades negras, indígenas e outros grupos racializados suportam, historicamente, os maiores impactos da degradação ambiental e das mudanças climáticas.
O conceito logo se espalhou pelo resto do mundo, principalmente em países do Sul global, onde as desigualdades se tornam ainda mais evidentes. No contexto brasileiro, movimentos sociais, comunidades indígenas e quilombolas e ambientalistas negros, uniram-se para enfatizar que o racismo ambiental é inseparável da história de colonização, escravidão e exclusão territorial.
“O racismo ambiental tem eventos marcantes (…) o primeiro caso desta discriminação foi a invasão dos portugueses ao Brasil” – disse Ana Sanches, doutoranda no programa de Mudança Social e Participação Política na EACH-USP e pesquisadora de Justiça socioambiental e racismo.
Nos últimos anos, esse debate passou a incorporar também as experiências de pessoas trans e travestis. A partir da articulação entre movimentos sociais, pesquisadores e organizações LGBTQIAPN+, ganha força o conceito de transfobia ambiental, termo definido no guia Justiça Climática, Diversidade e Justiça de Gênero, publicado pelo Ministério das Mulheres. Utilizado para compreender como essa população enfrenta impactos específicos antes, durante e depois dos desastres climáticos. Mais do que os efeitos da enchente, da seca ou do deslizamento, o conceito evidencia as barreiras institucionais que dificultam o acesso à proteção, ao acolhimento, à saúde e à reconstrução da vida.
Apesar desse avanço conceitual, permanece um obstáculo central: a invisibilidade estatística. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) tem alertado para a escassez de informações sobre as condições de vida da população trans no Brasil. Ainda sabemos pouco sobre onde essas pessoas vivem, quais condições de moradia enfrentam ou quantas estão expostas a áreas de risco.
Essa ausência de dados produz efeitos concretos. Quando uma população não aparece nas estatísticas, também corre o risco de não aparecer nas políticas públicas. Sem informações desagregadas, torna-se mais difícil identificar vulnerabilidades, direcionar recursos, elaborar protocolos de atendimento e construir estratégias de adaptação climática que contemplem a diversidade da população brasileira.
Os impactos, no entanto, existem independentemente das estatísticas. Estudo do Ipea sobre Inserção no Mercado Formal, Pesquisa do Banco Mundial e MDHC, Relatório da ONU Brasil sobre educação formal, apontam que pessoas trans enfrentam desigualdades históricas relacionadas ao acesso à moradia, ao trabalho, à renda, à educação e aos serviços de saúde. Em situações de emergência climática, essas desigualdades tendem a se aprofundar.
Quando o “desastre” acontece
Foi o que aconteceu no Rio Grande do Sul. Durante as enchentes, relatos reunidos por organizações da sociedade civil e pela imprensa mostraram que muitas pessoas LGBTQIAPN+ encontraram dificuldades para permanecer nos abrigos públicos. Em resposta a essa realidade, surgiu o Abrigo Renascer, criado pela própria comunidade para acolher pessoas LGBTQIAPN+ afetadas pela tragédia. Lugar onde Helen Faleiro encontrou acolhimento.
“Decidimos arrumar um prédio parado e trazer a população LGBT para cá. Em três dias, organizamos a iluminação, a rede elétrica e começamos a receber mulheres e homens trans”, contou ao Portal do G1, Dani Morethson, coordenadora da iniciativa.
A seca histórica do Rio Amazonas em 2025 e os deslizamentos de casas que acontecem todos os anos na cidade do Recife, situações de desamparo institucional e desumanização vivenciadas por pessoas trans, como a recusa em abrigos, a negação de direitos e serviços básicos, a falta de acesso à alimentação e as barreiras para acessar saúde e cuidado, demonstram a urgência de um olhar específico para essa população dentro da agenda climática.
A experiência do Renascer demonstra que comunidades historicamente excluídas também constroem respostas diante da ausência do Estado. Redes de solidariedade, acolhimento e cuidado tornam-se formas de enfrentar tanto os impactos do desastre quanto as desigualdades que ele evidencia.
Esse movimento pode ser observado em diferentes regiões do país.
Saberes que resistem em meio a crise ambiental
Em Ananindeua, no Pará, a CasaCura transforma cultura, plantio e cuidado coletivo em ferramentas de acolhimento e promoção de direitos para pessoas trans e travestis. O espaço fortalece vínculos comunitários e propõe novas formas de relação entre corpo, território e natureza.
“Orgulho é transformar a revolta em organização comunitária. É transformar uma casa em território. Um quintal em ecossistema. O acolhimento em incidência política. O cuidado como estratégia de enfrentamento”, afirmam as lideranças da iniciativa.
Em Recife, o ClimaQueer articula pesquisa, educação e mobilização para ampliar a participação de pessoas LGBTQIAPN+ nos debates sobre meio ambiente, direito à cidade e políticas climáticas. No Pará, o coletivo As Themônias encontra no upcycling uma estratégia de geração de renda, reaproveitamento de materiais e fortalecimento da autonomia de pessoas trans. Em São Paulo, a Associação Transmoras desenvolve iniciativas semelhantes, transformando resíduos em peças de moda e criando alternativas econômicas sustentáveis.
Nos territórios indígenas e quilombolas, pessoas trans também preservam conhecimentos ancestrais fundamentais para a proteção da biodiversidade e dos modos de vida tradicionais. Experiências como as do coletivo Miriã Mahsã, formado por indígenas LGBTQIAPN+ do Amazonas, e do coletivo LGBTQIA+ da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) demonstram que justiça climática também passa pelo reconhecimento dos saberes produzidos por esses povos.
Essas experiências desafiam uma visão limitada da população trans como apenas destinatária de políticas públicas ou grupo vulnerável diante da emergência climática. Elas mostram que pessoas trans e travestis também produzem tecnologias sociais, constroem redes de cuidado, fortalecem economias solidárias, preservam conhecimentos tradicionais e criam formas coletivas de adaptação às mudanças do clima.
Reconhecer essa produção é tão importante quanto ampliar a coleta de dados e construir políticas públicas específicas. A justiça climática depende da capacidade de identificar desigualdades, mas também de valorizar os conhecimentos produzidos por quem convive diariamente com elas.
A crise climática exige novas formas de imaginar o futuro. Parte dessas respostas já existe, nos quintais transformados em espaços de cuidado, nos coletivos que articulam educação e mobilização, nas práticas ancestrais de proteção dos territórios e nas redes comunitárias construídas por pessoas trans e travestis em todo o país.
Dar visibilidade a esses saberes não significa apenas reconhecer direitos. Significa ampliar o próprio entendimento sobre justiça climática e compreender que enfrentar a emergência do clima também passa por ouvir aqueles e aquelas que, mesmo historicamente excluídos dos espaços de decisão, seguem construindo caminhos para proteger a vida, os territórios e o futuro.
