“Esta marcha é a consolidação da nossa existência política e territorial”.
É assim que Dani Silva Pastor, advogado peruano e pessoa transmasculina integrante da organização do evento, sintetiza o que significou a Primeira Marcha trans e Não-binária realizada em Lima, capital do país, em 28 de Março de 2026.
500 pessoas ocuparam as ruas em uma mobilização que acontece em um momento político crítico: além de atravessar um segundo turno eleitoral incerto, o Peru se soma a um cenário regional em que setores da ultradireita e fundamentalismos religiosos avançam de forma articulada, utilizando as identidades trans como alvo político.
“Nos últimos anos, a transfobia se positivou no nível normativo”, explica Silva Pastor, e o que antes operava como exclusão social hoje se traduz em leis, decretos e políticas públicas que buscam limitar, criminalizar e patologizar as identidades trans.
A marcha, realizada no marco do Dia da Visibilidade Trans, foi uma resposta direta a esse avanço. “Estamos em um ano eleitoral em que se reativaram narrativas de ódio. Nossas identidades são utilizadas como cortina de fumaça para desviar dos problemas estruturais do país”, afirma.
O contexto eleitoral reforça essa leitura. Keiko Fujimori, candidata da direita conservadora, volta a liderar uma eleição e se encaminha para um novo segundo turno, em um país que ainda carrega as consequências do governo autoritário de seu pai, Alberto Fujimori. Sua figura condensa não apenas um passado de violência estatal e corrupção, mas também uma agenda política alinhada a setores conservadores que hoje ganham terreno em toda a América Latina. Do outro lado, Roberto Sánchez, ligado à esquerda e com forte apoio popular em regiões rurais e no sul do país, concentra parte significativa dos votos nesses territórios, em um cenário fragmentado e instável.
Nesse contexto, corpos trans se tornam terreno de disputa.
Silva Pastor descreve com precisão como a chamada “Lei dos Banheiros” criminaliza o uso do espaço público: um decreto recente tentou classificar as identidades trans como transtornos mentais e o Congresso impulsiona normativas que, longe de garantir direitos, aprofundam a exclusão. “É um Estado que nos patologiza enquanto nos nega direitos básicos”, afirma.
As consequências são concretas e violentas. Mulheres trans e transfeminilidades são empurradas a condições de extrema precarização, atravessadas por redes de extorsão e pelo aumento de transfeminicídios. Pessoas transmasculinas e não-binárias enfrentam terapias de conversão e violência corretiva. “Vivemos em um contexto de luto constante”, diz.
Um marco na história política do Peru

Diante desse cenário, a marcha não foi apenas sobre visibilidade, mas também organização política. “Esperávamos ao menos 100 pessoas, mas foram mais de 500. Vimos muitas pessoas jovens, famílias e, pela primeira vez, muitas pessoas transmasculinas juntas”, conta.
As demandas expressam um programa claro: revogação de leis discriminatórias, aprovação de uma Lei Integral Trans, acesso à saúde, moradia e trabalho, implementação da educação sexual integral nas escolas e tipificação dos crimes de ódio. E o pronunciamento coletivo deixa isso explícito: não há democracia possível enquanto as pessoas trans seguirem vivendo sob criminalização.
Em paralelo, o Estado peruano anunciou recentemente o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e originários por meio de uma política nacional projetada até 2040. Esse avanço, no entanto, convive com um cenário em que outras populações — como a de pessoas trans — continuam sendo objeto de exclusão sistemática. A ampliação formal de direitos não implica necessariamente em uma democratização real da vida.
Essa tensão também atravessa a experiência das pessoas trans migrantes no país. “A discriminação xenofóbica se soma à transfobia institucional, gerando uma situação de hiperprecarização”, explica Silva Pastor. O acesso a direitos básicos torna-se praticamente inexistente para quem habita múltiplas margens.
A marcha marca um ponto de inflexão dentro do próprio movimento LGBTQIA+ peruano. Embora se inscreva em uma história de luta mais ampla, aponta para uma busca de autonomia política em um contexto onde as identidades trans têm sido relegadas inclusive dentro dos espaços de diversidade. “Somos uma das populações mais violentadas e ainda assim ficamos à margem”, afirma.

Em um cenário regional em que a ultradireita avança construindo inimigos internos e utilizando discursos de ódio como estratégia política, o Peru aparece hoje como um território em disputa. O que está em jogo não é apenas uma eleição presidencial, mas o próprio alcance da democracia.
“Vamos nos organizar de maneira mais articulada e sustentar uma agenda política ano após ano. Não vamos dar um passo atrás”, afirma Silva Pastor.
Este cenário transforma a Primeira Marcha Trans no Peru em mais do que um marco histórico para a América Latina: ela surge como resposta coletiva em um continente onde direitos podem retroceder e as ruas voltam a ser o espaço em que se disputa quem tem direito a existir.