Há um meme que circula nas redes latino-americanas que diz: “Toda declaração de amor é urgente porque, a qualquer momento, os Estados Unidos podem invadir o seu país”. Surge quase como uma resposta irônica e política àquela frase de Raúl Zurita: “Toda declaração de amor é urgente porque vamos morrer”.
Sua potência está na crueza: condensa o clima histórico de uma região atravessada por intervenções, golpes, bloqueios e ajustes estruturais desenhados fora e executados dentro. A América Latina aprendeu cedo demais que a estabilidade é sempre provisória.
Em 2026, a frase deixa de parecer exagero digital e se torna diagnóstico político. O continente atravessa uma reconfiguração profunda: eleições decisivas no Brasil; um giro de ultradireita consolidado na Argentina sob o governo de Javier Milei; tensões abertas na Venezuela; e um cenário global marcado por bombardeios que atingem territórios como Gaza e Irã. O que parece distante reorganiza prioridades aqui mesmo.
O tabuleiro combina crise econômica, radicalização ideológica e realinhamentos estratégicos com os Estados Unidos. A incorporação do Chile a um giro à direita reforça a sensação de avanço coordenado. Não são fenômenos isolados, mas uma tendência continental que redefine maiorias e agendas.
Nesse cenário, o Brasil ocupa um lugar central. Não apenas por seu tamanho, mas por ser o coração econômico e geopolítico da América do Sul. Historicamente, porém, existiu uma barreira, idiomática e estratégica, que dificulta que o país se pense como parte orgânica de um bloco latino-americano. Olhar mais para Washington ou Bruxelas do que para Buenos Aires e Caracas foi uma constante diplomática.
Hoje, essa distância é um luxo que não podemos nos permitir.
O Brasil precisa romper essa barreira para se pensar como parte de um bloco regional. O que ocorre na Argentina não é um experimento abstrato: é um laboratório próximo. O que acontece na Venezuela é um alerta sobre como a soberania pode se tornar variável de negociação. O que ocorre em Gaza ou no Irã demonstra que a ordem internacional, em última instância, ainda se sustenta pela força.
Se o Brasil cair, em termos democráticos e de direitos, o impacto será continental. Em um momento em que grande parte da região se inclina para projetos conservadores, o Brasil representa a última grande potência sul-americana fora da órbita da direita radical, ao menos no Executivo. Sabemos que a ultradireita continua exercendo forte influência no Senado, na Câmara e nas grandes negociações políticas, mas, ainda assim, o peso econômico e diplomático do país o transforma em um dique de contenção.
Pensarmos hoje no Brasil, ainda com seus limites, é pensar-nos dentro de um marco em que os direitos humanos continuam sendo referência institucional. Não é ingenuidade: a violência contra pessoas trans persiste, a precarização atinge migrantes e trabalhadores informais, e o racismo estrutura oportunidades. Mas ainda existe um campo democrático de disputa.
Para pessoas trans, migrantes e trabalhadoras e trabalhadores, formais ou precarizados, essa diferença é decisiva.
O avanço da ultradireita não impacta apenas identidades dissidentes: impacta o mundo do trabalho. Quando se desmontam políticas de gênero, também se enfraquecem as proteções trabalhistas. Quando se atacam migrantes, constrói-se um inimigo útil para justificar salários mais baixos. Quando se estigmatizam pessoas trans, consolida-se um mercado de trabalho ainda mais excludente.
Na Argentina, o giro não foi apenas discursivo. As políticas de ajuste atingiram a educação pública, a saúde pública e as aposentadorias, além de impulsionarem reformas que corroem direitos trabalhistas. Promoveu-se a redução da idade de imputabilidade para 14 anos, ampliando a lógica punitiva. E a abertura à exploração de territórios glaciais, reservas estratégicas de água doce, sinaliza o deslocamento do Estado como garantidor de bens comuns para uma lógica de mercado.
Esse modelo reorganiza a sociedade combinando ajuste econômico, disciplinamento social e mercantilização de recursos.
O coração da América Latina
A pergunta que paira sobre o Brasil é estrutural: o que aconteceria se o coração do continente adotasse uma agenda que visse pessoas trans, migrantes e trabalhadores organizados não como cidadãos com direitos, mas como ameaças culturais e obstáculos econômicos?
Mesmo com o exemplo recente do governo de Jair Bolsonaro, o Brasil não pode cair onde caiu a Argentina, um país marcado por uma profunda memória histórica, pelos julgamentos das juntas militares e por um exercício constante de lembrança sobre a ditadura. Ainda assim, acabou cedendo ao esquecimento de um regime que causou tanto dano não faz tanto tempo.

Quando um projeto político define certos corpos como excesso, também redefine o trabalho como custo. E, quando o Estado se retira, o que desaparece não é uma abstração: são escolas, hospitais, aposentadorias e direitos trabalhistas.
Voltamos, então, ao meme.
“Toda declaração de amor é urgente porque, a qualquer momento, podem invadir o seu país.”
O amor, nesse contexto, não é romantismo. É uma defesa concreta da vida e do trabalho. É afirmar existência frente a projetos que buscam disciplinar corpos, fronteiras e salários. É entender que o que acontece em outros territórios não é espetáculo internacional, mas parte de um mesmo sistema de forças que também atravessa o Brasil.
Declarar amor, às nossas comunidades, às nossas lutas e aos nossos direitos, é urgente porque nada está garantido. E porque, se o coração do continente deixar de pulsar em chave democrática e social, o silêncio não será apenas brasileiro: será regional.
A urgência não é poética. É decisiva.