Quando eu era criança, ficava encarando livros nas lojas e revistas nas bancas de jornal. Em casa não havia livros, apenas uma bíblia pequena, cinza, de letras douradas gastas pelo tempo, que ganhei no meu batismo. Ao abrir ela hoje, junto a essas letras encontro rabiscos meus e penso que desenhei ali minhas próprias palavras antes mesmo de saber escrever.
Meus pais, pernambucana e baiano, não terminaram a nona série e nunca tiveram relação com a leitura. O preço dos livros e a certeza de que aquilo não era para nós afastava qualquer possibilidade de consumi-los. Em Guaianases, onde passei parte da infância, não havia livrarias nem bibliotecas por perto. E quando eu pedia um livro, minha mãe sempre dizia “minha vida já é um livro”. E eu respondia “sua vida é uma história, pois são as histórias que estão nos livros”. Isso a irritava.

Eu não sonhava em ser escritor ou poeta nessa época. Queria ser muitas coisas: estilista, advogada, atriz, bruxa, jogadora de vôlei. Mudava de sonho como quem experimenta vários sabores. Criava universos inteiros na cabeça, chorava por personagens que só existiam em mim. Papel, tampa, madeira. Tudo virava brinquedo pra mim, mas pra minha mãe era diferente. Eu via nessas coisas oportunidade de criação. Ela via lixo.
Por ser muito curioso, eu não aceitava não saber ler e escrever, e quando aprendi, me viciei. Lia placas, panfletos, qualquer coisa que aparecesse. Mais tarde vieram livros doados, revistas, quadrinhos. Aos nove anos, escrevi um acróstico para o Dia das Mães. A professora chorou, depois mostrou para outras professoras e todas choraram. Ali, algo acendeu: eu queria ser poeta.
Não poetisa.

Mesmo sem entender nada sobre questões de gênero, a palavra poetisa não me parecia adequada.
Aos 9 anos, tentei ler Castro Alves. Não entendia o sentido, mas entendia as palavras. Fiquei frustrado, como se a arte não fosse para mim. Ainda assim, continuei a escrever.
Cresci criando histórias em jogos de RPG de texto, dividindo narrativas com desconhecidos na internet. Abri até um blog de poesia, onde escrevia minhas dores toda semana, mas fora dali ninguém sabia. E quem sabia não lia. Por um tempo, pensei que talvez só minha morte fizesse meus textos existirem para alguém, como se eu precisasse desaparecer para ser lido.
Enquanto crescia, sempre senti que tinha algo diferente. Quanto mais o tempo passava, mais esse sentimento apenas crescia. À medida que fui ficando mais velho, diziam que eu deveria fazer Letras, mas eu só queria escrever.
A vida adulta, porém, me afastou da minha vontade. Trabalhar, sobreviver, repetir dias. Sentir o vazio da certeza de inadequação social. A escrita passou a ser uma amizade distante.

Até que um dia encontrei no Facebook um texto sobre pessoas não binárias. Um texto que fez aquele algo que se acendeu em mim na infância voltar a queimar e finalmente entendi quem eu era. Finalmente achei um nome para aquilo tudo que eu sentia. Finalmente.
Desse dia em diante, a escrita e minha transição de gênero passaram a caminhar juntas. Encontrei espaços como o TRANSarau e a Batalha Dominação, em São Paulo. Saía da periferia e me sentia parte de algo.
Nesses lugares, a solidão diminuía. Mas ainda não me via como artista. Parecia distante demais.
Como nasce uma pessoa poeta
Foram-se anos até começar a acreditar, mas com tempo acreditei. Comecei a mostrar a minha escrita, participando de saraus, mostrando textos a amigues. E, então, passei no edital da Editora Gráfica de Heliópolis. Senti uma alegria quase surreal. E só acreditei quando segurei o livro nas mãos. Ele existia. Eu existia nele.

Contei à minha mãe. Ela não é de esboçar sentimentos e apenas disse para eu ter cuidado. Meses passaram e, alguns dias após o lançamento do livro, em uma conversa pelo celular, ela me disse que, ao contar para uma mulher para quem faz faxina que seu filho lançaria um livro, a mesma afirmou que pobres não escrevem livros, só ricos. Aquilo ficou ecoando em mim.
Respirei fundo e disse a ela: “Então é justamente aí que você tem que falar. Para ela entender que não são só os ricos.”
Sinto que, por toda a vida, tentaram me convencer de que eu não era possível, de forma indireta e direta, que a arte não é para a quebrada. Mas eu existo, mesmo quando negam. Existo como pessoa trans não binária da Zona Leste de São Paulo. Negro, poeta, escritor e artista.
Autor de um livro e de muitos outros que estão para nascer.
