Gravando. Ruas. Abre aspas.
Mais um dia frio na capital paulista. Bem vindos a mais um podcast “Memórias do Futuro”. Meu nome é ###### e hoje caminho pelas ruas do antigo Arouche, pensando como nosso país mudou nos últimos dez anos, enquanto converso com vocês. O centro da cidade nunca esteve tão cinza. Pelas esquinas a população de desgarrados só aumenta, enquanto disputam o aroma de uma lata de sardinha vazia. Letreiros neon apagados, placas enferrujadas pelo tempo e santinhos de demônios se acomodam na paisagem em um caos tão organizado que já não polui mais as vistas, apenas nos lembra de tempos que não importam mais.
Mas ainda tenho, de certa forma, um carinho por aquela época. Eu era jovem, havia acabado de me formar e conseguir uma coluna em um dos maiores jornais do nosso país, quando eles ainda importavam. De repente, era o orgulho da família, o que não era muito difícil sendo filho único, amado e desejado.
A última corrida eleitoral também deixou lembranças. Recordo ainda agora o terror que assombrava a mim, minha família e meus amigos no começo de 20#6. Nossos maiores líderes perseguidos, exilados ou trancafiados. A onda progressista cada vez mais enfiada à força em nossas goelas, como se fossemos bebês desprotegidos amarrados a uma cadeira, obrigados a aceitarem aviõezinhos de papinha esquerdista em nossas bocas.
Tudo era muito desesperador. Até que, ao norte, gente sensata finalmente conseguia unir forças e vencer tudo aquilo. Quando o presidente ########### tomou posse naquele ano, o que era apenas esperança se concretizou de vez. Foi o efeito dominó que levou o mundo ao céu livre de arco-íris que vivemos hoje.
Sua primeira e brilhante ação, foi –—
Pausa. Fecha aspas.
Preciso de um banheiro. Alighieri, não esqueça de cortar essa parte fora quando estiver editando.
Gravando. Ruas. Abre aspas.
Continuando. Sua primeira e brilhante ação foi, ainda me lembro de ter lido com um sorriso nos olhos, determinar o fim da ideologia de gênero, que tantas crianças vitimizou. Que alegria. No começo, o mundo fingiu achar aquilo um absurdo, mas aos poucos parou de sentir medo e em questão de meses a caça aos esquisitos transgeneros começou, com um plano brilhante. Eles adoravam chorar por banheiro e—
Pausa. Fecha aspas.
Alighieri, me lembre depois de nunca mais sair de casa depois de ingerir muito líquido.
Gravando. Ruas. Abre aspas.
— e então finalmente a ONU aceitou e determinou a criação de um terceiro só para aquele povo. Fizeram barulho por um tempo, se revoltaram e xingaram, mas 2% da população contra todo restante do mundo é como uma formiga tentando derrubar Golias. Falando agora com vocês a nostalgia toma conta de mim, enquanto relembro as caçadas, que começaram na calada da noite e no fim se tornaram entretenimento para crianças à luz do dia.
Entravamos nos banheiros públicos e ficávamos à espreita, investigando qualquer possível perturbade – hahaha, lembrei que tinham essa loucura de dialeto – que entrasse ali achando que não seriam percebidos. Os tais ‘caras’ sempre se entregavam quando iam mijar no box fechado, achando que uma barba os protegeria. Já ‘elas’, era marca da barba que denunciava a pervers—
Pausa. Fecha aspas.
Alighieri, entrarei em um bar para usar o banheiro. Não vou parar a gravação, então apenas aceite os barulhos e não esqueça de editá-los.
– Com licença.
– Pois não?
– Onde fica o banheiro?
– No fim do corredor à esquerda, meu senhor.
– Obrigado.
– Senhor?
– Sim?
– Aceita uma pílula?
– Pílula?
– Sim, é como chamamos nossas balas de açúcar.
– Ah, claro.
O sujeito que acabou de falar comigo tem um cheiro horroroso que me lembra aquele povo do hormônio, Alighieri. Fossem outros tempos, eu já estaria o denunciando. Mas talvez seja só minha imaginação me pregando peças. Até que essa balinha que ele me deu não é ruim. Ele disse que é de açúcar, mas o gosto é salgado e amargo. Estou entrando no banheiro, vou te ligar assim que-pzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

Gravando. Banheiro. Abre aspas.
Alô, alô. Teste. Teste. Alighieri, deixei o gravador cair e espero que a memória dele não tenha sido danificada. Por via das dúvidas, decidi registrar aqui o que está acontecendo por segurança. Algo está fora do normal.
A porta por onde passei se fechou atrás de mim, com um estrondo digno de filmes de guerra. Foi quando me assustei e deixei o aparelho escorregar pelos meus dedos. Estou há um tempo que já não sei dizer quanto tentando abri-la, mas a maldita maçaneta sequer se move. Estou preso aqui. Tenho gritado pelo homem que me atendeu em busca de ajuda, mas ninguém responde. Não sei o que está acontecendo e o gosto amargo daquela pílula não sai da minha boca. Desconfio ter sido drogado.
Gravando. Banheiro. Abre aspas.
Alighieri, já não há dúvidas. Eu caí em alguma armadilha. Não há janelas nem abertura alguma nas paredes desse lugar. E a porta segue imóvel, quieta e inútil. Meu celular não funciona e as luzes no teto parecem estar prestes a se apagar de vez. O que está acontecendo aqui? Eu preciso de ajuda.
Gravando. Banheiro. Abre aspas.
Minha apreensão começa a dar lugar ao medo. Já estou aqui há pelo menos dois dias inteiros. Não ouço movimento algum do lado de fora desse lugar. Passo horas gritando por ajuda, amaldiçoando a tudo e todos, mas ninguém me ouve. Ou se ouvem me ignoram.
A essa altura, a fome começa a dominar meus pensamentos. Sinto sede. Muita sede. Eu espero que quando ouvirmos essa gravação juntos, Alighieri, a essa altura você já tenha notificado as autoridades sobre meu desaparecimento, para seu próprio bem. Deus, como tenho sede.
Gravando. Banheiro. Abre aspas.
Meu deus, Alighieri, ela sumiu! Sumiu! A porta que estava bem aqui a minha frente, imóvel e inútil, desapareceu! Não só ela, mas tudo ao meu redor desapareceu. Apaguei há algumas horas devido ao cansaço e, ao abrir os olhos novamente, apenas quatro paredes cinzas e geladas me encaravam. Estou em uma prisão! Alguém está fazendo isso comigo. Alguém entrou aqui e alterou esse lugar enquanto eu dormia. Ou será que fui transportado para outro espaço? Alighieri, eu já não s-
Gravando. Banheiro. Abre aspas.
Meu estômago dói. O sabor da pílula é a única coisa que não me abandonou.
Gravando. Prisão. Abre aspas.
Não há espelhos aqui, mas sinto que pareço cada dia mais com um homem das cavernas. Os pelos do meu corpo crescem sem controle. Sinto calor como os descritos por profissionais quando falam sobre menopausa. Impossível. Eu nunca tive pelos. E eu não sou uma mulher.
Gravando. Prisão. Abre aspas.
Me sinto fraca. Fraco! Uma pessoa fraca. Acordei com a sensação de picada em minha coxa direita, como se uma agulha me penetrasse. Até vejo a marquinha, vermelha e minúscula, mas não há sinal de agulha, seringa ou qualquer inseto aqui que poderia ter a feito. Esse lugar cheira a fezes e urina, Alighieri. Me tornei um bicho.
Gravando. Prisão. Abre aspas.
Seja lá quem for que esteja tentando me enlouquecer, está fazendo um ótimo trabalho. Acordei e encontrei o lugar limpo. Cheiroso. Um box com um mictório e uma privada foi posto do outro lado desse quadrado infernal em que me prenderam e garrafas de água foram enfileiradas, como se mostrasse um caminho entre mim e ele. O gosto na minha boca agora é doce. Já tomei quatro das garrafas e a sede não passa. Meu Deus, eu só quero ir pra casa.
Gravando. Prisão. Abre aspas.
DROGA! DROGA! DROGA! Me tirem daqui!
Gravando. Prisão. Abre aspas.
As garrafas de água acabaram. Os pelos do meu corpo caíram. Minha pele cheira a uma manhã de primavera e eu quero morrer. Passo eternidades olhando para o mictório e o vaso a minha frente, mas não sinto vontade fisiológica nenhuma.
Gravando. Prisão. Abre aspas.
Isso só pode ser o inferno. É assim que eles se sentiam em banheiros? Quando os prendíamos ali para abatê-los? Eu já entendi. Por favor, me perdoem.
Gravando. Box. Abre aspas.
Me transportaram de novo. Já não estou mais naquele quadrado horrível, mas, meu Deus… Alighieri… estou no box. Justo no box! Me prenderam no box. Eu mal consigo ficar em pé aqui. É apertado, úmido, e como fede! Esse mictório fede a tripas de peixe morto. O vaso está inundado com o que parece ser toda a podridão do mundo. Me tire daqui, por favor! Por favor!
Gravando. Box. Abre aspas.
Pela primeira vez em uma eternidade, meu corpo decide responder ao chamado da natureza. As garrafas de água que bebi, não sei se ontem ou há dez mil anos, finalmente pediram seu retorno. Eu preciso urinar, mas meu corpo não obedece. Estou aqui, parado, com meu pau em mãos, e nada acontece. Nada. Nada. Sinto minha bexiga queimando. Eu não aguento mais. Alguém me mate!
Gravando. Box. Abre aspas.
Esse espaço pequeno me condena a ficar em pé. Minhas pernas doem.
Gravando. Box. Abre aspas.
Sinto a minha língua macia. E minha saliva tem gosto de ferrugem.
Gravando. Box. Abre aspas.
Alguém tirou minhas roupas. Alighieri, alguém me violou. Não sinto meus braços. Não vejo minhas pernas. Não sei mais o que é real ou não nesse lugar. Você ouve daí? Alguém está rindo do outro lado da parede. Parece a voz do homem que me atendeu. Ou era uma mulher? Não me recordo, mas era uma pessoa.
Sinto mil litros de urina me corroendo por dentro, mas não há lugar por onde possam sair. Onde estavam minhas partes íntimas, sinto apenas um buraco, oco, habitado por uma cobra em chamas. Estou gritando e ninguém me ouve.
O que é isso? Alighieri, por que você me deu essa ideia? Por que me fazer andar pelas ruas falando para esse aparelho? Há quantos milênios estou aqui? Quantos pecados estou pagando? Não podem ser só os meus? Eu não consigo me sentar. Esse lugar solitário, podre e úmido. Eu não devia acabar assim, em um banheiro. Mas eu quero tanto acabar. Por favor, acabe logo essa história. Eu preciso sair daqui. Onde está meu corpo, Alighieri? Por favor, me perdoem. Me perdoem pelo que fizemos a vocês.
Oh, Deus. Oh, meu Deus! Eu não tenho um corpo e preciso mijar.
