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Racismo entre nós: peles brancas, máscaras trans

hela
Racismo entre nós: peles brancas, máscaras trans

Quando a branquitude se disfarça de vulnerabilidade e sufoca nossos afetos

Há nove anos, eu era expulsa de casa. Poucos meses depois, encontrava morada na capital paulista. Mesmo sendo baiana, até então eu vivia no interior do estado, então a chegada na cidade grande foi um deslumbre melancólico: eu estava sozinha em um mundo frio e cheio de racismo. Isso era assustador. Mas a vida foi generosa comigo. Pouco a pouco, fui conhecendo outras desgarradas como eu. Pouco a pouco, fui aprendendo a sobreviver — e também a viver.

Talvez o ponto mais importante de tudo isso tenha sido minha imersão no meio trans. Eu estava cercada, o tempo todo, de pessoas LGBTs — mas, principalmente, de pessoas trans. A primeira pessoa para quem chorei as dores de ser travesti foi alguém que, na época, derramou lágrimas pelos mesmos motivos no meu colo. Também foi a pessoa que me ensinou, da forma mais cruel possível, que eu não estava apenas convivendo com alguém que tentava existir como eu vinha tentando. Eu estava diante de algo maior. De uma estrutura. De uma máscara. Um poder que, mesmo por trás da dor, seguia intacto: uma branquitude que se escondia na vulnerabilidade para impregnar o outro — negro — de domínio.

Pensar nessas coisas ainda me causa calafrios. Não apenas por causa da travesti branca que me explorou, me pintou de monstro, e riu dizendo que eu usava racismo para me vitimizar. Mas porque ela representou — e representa — algo muito maior.

Fanon escreveu sobre como pessoas negras precisam vestir máscaras para sobreviver no mundo branco, ao racismo. Mas o que acontece quando pessoas brancas também vestem máscaras — não para sobreviver, mas para manter o controle?

Essa foi a pergunta que me fiz, às vezes em silêncio, às vezes em voz alta, conforme presenciava, sofria ou ouvia falar de violências raciais tão comuns no meio trans. É difícil falar sobre isso porque, muitas vezes, a experiência trans branca é apresentada como a única narrativa possível da transgeneridade. É ela que ocupa as capas, os editais, os afetos públicos. Mesmo no subalterno, a branquitude encontra um trono.

Então não é de se espantar que, como acontece entre os cis, quando uma de nós — pessoas trans negras — levanta a mão para chamar atenção para uma dinâmica racial desequilibrada no nosso meio, sejamos recebidas com escárnio, calúnias e, às vezes, até ameaças.

Talvez uma das defesas mais comuns, viralizada por aí por quem já perdeu o escrúpulo de instrumentalizar sua identidade, seja a de que não haveria como uma pessoa trans branca exercer racismo, já que essa população está ausente dos grandes espaços de decisão e poder. Um argumento que, sem muita reflexão, soa plausível.

Mas se o mal do mundo é apenas o estrutural, o que são nossas relações interpessoais?

Racismo entre nós: peles brancas, máscaras trans
Entre a transfobia e o racismo

Existem relações de poder em escalas quase infinitas. Por essa lógica rasa, ninguém seria responsável por nada. E, no entanto, há relações de poder quando uma militante trans respeitada no meio paulista usa de sua influência para atrair à sua casa — e à sua cama — corpos negros e trans que serão usados como mão de obra doméstica e sexual.

Há relações de poder quando boatos sobre um homem trans negro se tornam mais factuais e dignos de repressão do que denúncias concretas sobre um homem trans branco. Há relações de poder quando um homem trans branco celebra poder, enfim, pegar um ônibus sem ser importunado, enquanto homens trans negros se suicidam por não suportarem a violência policial que recai sobre seus corpos lidos como masculinos. Há relações de poder quando a nossa transfeminilidade negra é sempre empurrada para o lugar da cuidadora, do colo, da amiga incomparável – algo também presente nas experiências de nossas irmãs cis -, enquanto o desejo genuíno, o afeto e o amor são coisas direcionadas exclusivamente às brancas. E por ai vai.

E existe algo de particular crueldade na forma como a branquitude trans se recusa a reconhecer o racismo quando ele não vem com gritos ou xingamentos. Quando ele aparece no descaso, na comparação injusta, no “não foi minha intenção”, na negação de espaço, na apropriação do discurso.

O racismo relacional – esse que se infiltra nos afetos – é o mais difícil de nomear. E o mais devastador.

Há um padrão nas violências raciais que sofro no meio trans, e ele é compartilhado por toda pessoa trans negra que conheço. Sempre que algo assim acontece — e acontece muito — passo meses me perguntando se fui eu quem errou. Se exagerei. Se fui dura demais. Porque é raro, muito raro, sermos ouvidas.

Quando falei, anos atrás, que passava por violência de motivação racial nesta cidade, a não-desejada nos espaços me tornei eu. Só acreditaram em mim muito tempo depois, quando outras vítimas apareceram e, ainda assim, de nada tudo aquilo adiantou: fomos reduzidas a uma fofoca momentânea e nossa agressora seguiu sua vida como psicóloga respeitada nos espaços, enquanto nós juntávamos nossos cacos e tentávamos sobreviver. 

Há um pacto de proteção muito forte na branquitude que ignora completamente a experiência de gênero: de cis a trans, eles se defendem — enquanto te descredibilizam.

Esse é o estrago que o gaslighting branco faz: você duvida da própria dor. E isso cansa. Machuca. Faz a gente se calar para não parecer paranoica. Faz a gente se afastar para não ser chamada de agressiva. Faz a gente sumir — e depois ainda perguntam por que sumimos. Faz a gente morrer.

Não escrevo este texto por vingança. Na verdade, nem sei onde quero chegar com ele. Talvez seja só uma tentativa de descanso. Ou de gritar para outras pessoas trans negras que elas não estão malucas.

Ao mesmo tempo, escrevo também para a parte branca do nosso povo. Para que se aproxime. Para que nos abracemos. E para que busquemos possibilidades genuínas de lidar com tudo isso.

Porque a ideia de que estamos todas igualadas no mundo apenas por compartilharmos o alvo da transfobia já não dá mais conta das nossas realidades. Podemos estar no mesmo rio, mas não compartilhamos os mesmos barcos. E o seu, provavelmente, tem furos bem pequenos se comparado ao meu. Talvez você tenha remos. Nós precisamos empurrar a água com as mãos. E isso não pode mais ser ignorado.

A transfobia é, acima de tudo, uma ferramenta do racismo. Há muita literatura sobre isso. Basta olhar para as histórias das colonizações, para os índices de assassinato no Brasil. Não entender isso só nos afasta ainda mais da mudança. Não é possível acabar com a transfobia sem acabar com o racismo.

E não é possível acabar com o racismo ignorando-o dentro do nosso próprio meio.

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Hela Santana

Cofundadora e Diretora de Conteúdo
Travesti (ela/dela)
Nascida em Jequié, interior da Bahia, Hela é escritora e roteirista audiovisual. Na TV Globo, fez parte da sala de roteiros das séries Histórias (im)Possíveis e Encantado’s, em quadro de animação para o Fantástico e foi consultora dramatúrgica do remake da novela Elas por Elas. Nos últimos anos, tem trabalhado em seu primeiro projeto autoral, o documentário Pajubá, que narra histórias de pessoas trans nos cinco cantos do Brasil.

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