Você já parou pra pensar que a roupa que está vestindo agora pode ter tido um caminho trágico para o meio ambiente e que, depois que você deixar de usá-la, o destino pode ser ainda mais desastroso?
Nas próximas semanas, o Brasil se torna o centro das discussões climáticas globais ao sediar a COP30, em Belém. Representantes de todo o mundo se reúnem para debater caminhos de mitigação da crise climática — uma crise que já nos colocou em uma zona de calor sem volta. E entre os grandes agentes desse cenário está uma indústria que, à primeira vista, parece inofensiva: a indústria têxtil.
Hoje, ela é uma das maiores do mundo em movimentação de recursos e também uma das que mais contribuem para a degradação ambiental. A produção de algodão, por exemplo, ocupa cerca de 2,5% das terras aráveis do planeta e consome aproximadamente 200 mil toneladas de pesticidas e 8 milhões de toneladas de fertilizantes por ano, segundo pesquisa do International Science Council. Para fabricar uma única camiseta de algodão, são necessários 2.700 litros de água.
O futuro da moda
O fast fashion, impulsionado pela lógica do consumo e das redes sociais, cria um ciclo acelerado: roupas baratas, de baixa qualidade e curta durabilidade são produzidas e descartadas em massa para alimentar o desejo de novidade constante. De acordo com o relatório The Dark Side of Fast Fashion, 85% de todos os têxteis produzidos anualmente vão parar em aterros ou fornos de incineração, enquanto apenas 1% é reciclado e retorna ao ciclo produtivo.
Mesmo que os países mais ricos sejam os maiores responsáveis por esse descarte em larga escala, são os países mais pobres que sofrem os impactos ambientais mais severos.
Esse sistema também está diretamente ligado à desigualdade social. No Brasil, famílias das classes C e D chegam a gastar cerca de 50% da renda com alimentação e 46% com dívidas, o que limita o acesso a roupas de maior qualidade ou produzidas de forma sustentável. O resultado é uma dependência estrutural de roupas baratas e descartáveis, reforçando o ciclo de degradação ambiental e precarização do trabalho.
Mas soluções estão sendo criadas — e muitas delas nascem das margens, de corpos e mentes trans que reinventam a própria estrutura da moda.
Um exemplo potente é o Ateliê Transmoras, fundado dentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em uma ocupação conduzida pela estilista e performer Vicenta Perrotta, reconhecida nacionalmente por desenvolver a teoria da transmutação têxtil — uma prática que transforma o descarte em arte, e a moda em ferramenta de liberdade e imaginação política.


Foto: Marcelo Soubhia


Foto: Marcelo Soubhia
A proposta do Ateliê é simples e revolucionária: dar nova vida ao que seria lixo. Tecidos e roupas descartadas são transformados em novas peças por meio de técnicas de upcycling e da própria transmutação têxtil — um processo que une arte, sustentabilidade e inclusão social. Mais do que moda, o que se produz ali é futuro: um modelo de produção consciente que forma e emprega pessoas trans, travestis e não-bináries, fortalecendo uma economia solidária e de impacto.
Em sintonia com os debates da COP, o Ateliê apresenta o desfile-performance “Raízes do Futuro Encanto”, que celebra a moda como linguagem de resistência, ancestralidade e imaginação política. O evento reúne artistas, designers e coletivos que atuam entre arte, moda e comunicação, mostrando que vestir é também um gesto de transformação do planeta.
O desfile é parte de um ciclo maior: o Transbordas, movimento que conecta coletivos trans e travestis de diferentes territórios do Brasil em torno da arte, da comunicação e da sustentabilidade. Um programa que amplia o diálogo sobre justiça climática e economia criativa, e que reafirma a potência da cultura como resposta às emergências sociais e ambientais.
Programação – 16 de novembro de 2026
Local: Núcleo de Consciência Trans da Unicamp — Av. Prefeito José Roberto Magalhães Teixeira, 1663 (ao lado da portaria 6), Campinas (SP)
Entrada gratuita | Acessibilidade: espaço com arquitetura acessível
- 12h – Abertura das atividades
- 14h – Lançamento do livro “É hora do ser humano voltar a olhar pro céu”, com as autoras Katryna e Dil Vaskes e mediação da bióloga Beatriz Fariano
- 15h – DJ Set com Ymoirá Mical (techno, house e disco)
- 16h30 – Prólogo com Vicenta Perrotta, Antonia Moreira e representantes do NCT
- 17h30 – Desfile “Raízes do Futuro Encanto” – apresentação das criações autorais das turmas de São Paulo e Campinas
- 19h–20h – Cine Bassura e discotecagem final
Durante todo o dia:
- Exposição Rafaela Kennedy
- Shopping Trash com peças colaborativas
- Praça de Alimentação com produtos de empreendedores trans