Migrar é sempre uma travessia com custos. Para pessoas trans, essa travessia costuma começar como urgência e luto ao mesmo tempo. O percurso combina reinvenção, instabilidade, barreiras burocráticas e uma sensação constante de estar traduzindo a própria vida em tempo real. Nesse cenário, redes de apoio deixam de ser apenas espaços de afeto: tornam-se estruturas políticas de sobrevivência.
Pessoas trans e LGBTQIA+ migram por múltiplas razões. Muitas fogem de governos ultraconservadores, da criminalização direta ou indireta de suas identidades, de legislações que restringem circulação, trabalho, acesso à saúde ou reconhecimento legal. Outras migram para construir sonhos — e isso também é legítimo. Quando a migração atravessa corpos dissidentes, ela evidencia algo central: o direito à existência não é distribuído igualmente.
Dados do relatório “Refúgio em Números”, sobre migração no Brasil mostram que Venezuela, Argentina e Chile estão entre os países de origem mais frequentes de pessoas migrantes que chegaram ao país nos últimos anos, especialmente no caso venezuelano, que lidera os fluxos recentes. Dentro desses contingentes, estão também pessoas LGBTQIA+ que migram por razões econômicas, políticas e, muitas vezes, por perseguição — ainda que essa dimensão raramente apareça de forma explícita nas estatísticas oficiais.
O que os dados não conseguem registrar
A ausência de informações mais precisas não é casual. Muitas pessoas LGBTQIA+ — sobretudo trans — optam por não declarar identidade de gênero ou orientação sexual durante processos migratórios por razões de segurança. Em países de origem, essas informações podem significar risco de prisão, violência ou morte. No país de chegada, o medo da exposição e da discriminação permanece.
No Brasil, essa invisibilidade também se reproduz no Sistema Único de Saúde (SUS), principal porta de acesso da população migrante aos serviços públicos. O registro de pessoas trans ainda é limitado e, na prática, costuma aparecer quase exclusivamente vinculado à hormonioterapia. Não há dados amplos e interseccionais sobre saúde integral, condições de vida ou acesso a políticas públicas de pessoas trans migrantes. Sem dados, não há política; sem política, a precariedade se naturaliza.
Chegar sem chão
Foi nesse contexto que cheguei ao Brasil: sem chão, com orientações contraditórias e sem garantias mínimas sobre como reorganizar a vida. Um amigo do Rio de Janeiro me enviou o contato da Rede MILBi+, coletivo formado por pessoas migrantes LGBTQIA+ em São Paulo. Em poucas horas, alguém me respondeu, explicou como a rede funcionava e marcou uma conversa.
Antes mesmo de entender sua estrutura, encontrei algo que, para pessoas trans migrantes, costuma ser raro: um gesto imediato de cuidado.
A primeira pessoa a me acolher foi Isa Flores Radusky, pessoa trans não binárie, também da Argentina. Isadosky, como é conhecide, abriu sua casa, ofereceu um quarto e garantiu um espaço para respirar enquanto eu organizava as urgências. Havia uma data fixa no horizonte: em vinte dias, eu precisaria viajar ao México para a Feira do Livro. O medo era atravessar novamente a imigração com documentos femininos e um rosto em transformação. Isa esteve em tudo — da maquininha de barbear à partilha da ansiedade diante de documentos que não nos refletem, até o acompanhamento no momento de aplicar testosterona, que naquele período ainda significava um pacto íntimo de continuidade.
Foi desse quarto emprestado que participei da minha primeira reunião da Rede MILBi+. Não era uma triagem burocrática nem um atendimento formal. Era um encontro horizontal. A pergunta central não era apenas “do que você precisa?”, mas “como a gente se organiza para que você exista aqui — e também possa contribuir?”.
Uma rede que se constrói por dentro
A história da MILBi+ começa antes da formalização da Rede, em encontros que respondiam a uma necessidade concreta de permanência. Em 2017, Maria Botero propôs um encontro específico para mulheres lésbicas e bissexuais migrantes no espaço das Warmis, no Centro Cultural São Paulo. O que parecia um evento pontual revelou algo maior: a urgência de permanecer próximas.
A partir de 2018, a Rede se estrutura e passa a reunir, de forma contínua, migrantes lésbicas, bissexuais, pansexuais, trans e não binárias em São Paulo. Os encontros aconteciam em SESCs, bibliotecas, casas parceiras e espaços culturais do centro. Não eram apenas momentos de convivência, mas espaços de elaboração política, cuidado mútuo e proteção.
Para Flor Castoldi, integrante de longa data e parte da coordenação, esse pertencimento é concreto: “Desde que comecei a participar da Rede MILBi+, encontrei um espaço de pertencimento afetivo onde somos nós mesmes que nos acolhemos. Aprendi que o coletivo não se faz apenas de ideias semelhantes, mas da capacidade de transformar diferenças em força comum”.
Reparar também é fazer política
Verónica Gálvez Collado, presente desde os primeiros dias, costuma destacar um princípio pouco comum em espaços militantes: a reparação. “Trabalhar coletivamente é aprender a reparar. Aqui, se alguém erra, existe espaço para reparar. Isso sustenta a Rede por dentro”, afirma.
Ela também lembra que o trabalho em rede não pode ignorar a materialidade da vida migrante: “Somos pessoas migrantes e nem sempre temos estabilidade. Às vezes precisamos priorizar trabalho externo para pagar aluguel e comer. Isso impacta o ritmo da Rede, mas também nos ensina a respeitar nossos próprios contextos”.
Do cuidado à incidência institucional

A atuação da MILBi+ não ficou restrita ao apoio comunitário. A Rede também passou a ocupar espaços institucionais historicamente negados a pessoas migrantes. Antes da nova Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), que substituiu o antigo Estatuto do Estrangeiro da época da ditadura militar, marca uma mudança de paradigma ao tratar a migração como um direito humano e não mais como uma questão de segurança nacional, migrantes sequer podiam se manifestar politicamente no Brasil. A mudança abriu brechas — e a Rede soube ocupá-las.
Em 2025, a MILBi+ participou da 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e, em parceria com o coletivo LGBT+ Movimento, conquistou a aprovação de uma proposta prioritária sobre migração internacional. O processo envolveu um ano de articulações, reuniões e idas a Brasília, resultando na criação de um Grupo de Trabalho sobre Migrações e na inclusão da pauta de pessoas LGBTQIA+ migrantes no debate nacional.
Para Rocio Shuña, também da coordenação, essa conquista só foi possível pela força coletiva: “A articulação e as parcerias que construímos ao longo dos anos foram essenciais. O cuidado se transforma em estratégia política quando feito em conjunto”.
Um processo que não se encerra
Migrar sendo trans significa atravessar fronteiras físicas, legais e simbólicas. Por isso, ferramentas comunitárias de cuidado não são complementares às políticas públicas: são, muitas vezes, a única garantia concreta de existência.
Encerrar esta coluna é difícil porque nada aqui se fecha. A migração não termina; a transição não termina; o coletivo tampouco. Como sintetiza Verónica: “Uma casa muda cada vez que alguém entra. Trabalhar em rede é respeitar o contexto histórico de cada pessoa e garantir que todas tenham condições de se integrar”.
Minha identidade migrante está atravessada pelo caminho que a Rede MILBi+ construiu — um caminho de cuidado, luta e pertencimento, feito de pequenas geografias de resistência.