Representante do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat) no Conselho Nacional LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Fabian Algarte, homem trans de 51 anos, conversou com Hela Santana da Transmídia e o Brasil de Fato DF sobre a terceira edição da Marsha Trans Brasil, marcada para domingo (25). O coordenador nacional do Ibrat também falou sobre os desafios enfrentados pela população trans em um contexto de transfobia institucionalizada no país.
Confira a entrevista:
Transmídia – A Marsha Trans já é hoje uma das maiores manifestações sociais do nosso país. O que significa para a população trans ocupar a capital do Brasil em luta por direitos humanos e contra a transfobia?
Fabian Algarte – É o eterno trabalho da população trans de lembrar aos sujeitos que operam o Estado que nós existimos, nós somos pessoas e precisamos ter nossos direitos garantidos pela constituição, como todos os outros.
É o esforço para estarmos presentes na capital do país a dizer que somos povo brasileiro e é obrigação do Estado cumprir o que está na Constituição e isso inclui políticas públicas de reparação e garantia de direitos. Nós estamos aqui para lembrar que sempre estivemos aqui e que continuamos precisando de ações reais do poder público para garantir vida e dignidade para os nossos.
Também é um momento maravilhoso de congregar nossas pessoas de diferentes lugares do país em um “sim, eu ainda estou aqui e não estou só”. Encontrar e conhecer pessoas trans, ouvir diferentes perspectivas, realidades e interseccionalidades é importante. Somos um povo. Somos um povo brasileiro que clama também por cuidado e acesso a toda a dignidade.
O que a sociedade perde ao tratar pessoas trans como problema a ser ignorado ou erradicado?
Quando uma sociedade resolve tratar como menos humano um grupo de pessoas, essa sociedade assume para si a vergonha de ser fascista, e perder a ética, a humanidade, a dignidade. Erradicar grupos de pessoas é política de extermínio – é fascismo, é desumanidade, é violência.
As pessoas conseguem perceber isso ao se tratar de diversas populações. Mas quando se fala de extermínio de pessoas trans, ignoram completamente que é o mesmo raciocínio. É a mesma coisa.
Somos um universo infinito de possibilidades. Além da violência do patriarcado machista, racista, classista e capacitista que bate em todas as pessoas, o que limita uma pessoa trans na sociedade é a gama de violências advindas do preconceito transfóbico. É isso que nos impede de viver na nossa plenitude: de morar, de estudar, trabalhar, comer, ter renda, família, afeto, companhia.
A resistência trans de se agrupar e ocupar os espaços e avançar na sociedade demonstra a potência do nosso povo – como vemos em exemplos como Erika Hilton, Symmy Larrah, João Nery.

A presença transmasculina no debate público vem se fortalecendo ao longo dos anos, a exemplo da Marcha Transmasculina organizada pelo núcleo São Paulo do Ibrat, que em duas edições colocou mais de 17 mil pessoas nas ruas. Mas, historicamente, há um apagamento dessa população até mesmo dentro de movimentos progressistas. É possível ver uma mudança nesse cenário quando falamos da Marsha de Brasília?
A Marsha é construída por uma parceria entre a Antra [Associação Nacional de Travestis e Transexuais] e o Ibrat em um trabalho sério de paridade e parceria. É a presentificação dessa mudança.
Os calendários de atividades durante a Marsha são elaborados também pelas transmasculinidades organizadas e trazem as realidades e demandas diversas de nossa população: de saúde, educação, autocuidado, da população transmasculina negra, da existência plena do nascimento à morte. Estamos trabalhando e ocupando espaços e mostrando as pluralidades das transmasculinidades, inclusive na construção do transfeminismo das transmasculinidades e outras construções.
O que precisamos é que isso progrida também nos espaços organizados – pensar transmasculinidades não é pensar em cismasculinidade – e pensar em outras formas de vivenciar. E isso deve se estender aos espaços partidários – é necessário se pensar o que precisamos no movimento progressista para ajudar as transmasculinidades, avançando sobre os espaços da política legislativa. Esse também é um exercício que cisaliados precisam fazer.
Um dos temas da Marsha esse ano é “um país soberano é um país sem transfobia”. Esse Brasil é possível?
Sim. Sempre. O ativismo se baseia na esperança de mudar a realidade para algo melhor para todas as pessoas.
Agora é importante lembrar que isso não acontece sem o trabalho de todas as pessoas. Combater a transfobia é um trabalho para as pessoas cis também – a transfobia nasce da cisgeneridade, é preciso que ela se comprometa ativamente para combater a transfobia.
Ser aliado não é bater palma, é botar a mão na massa. É vir conosco para as manifestações, aprender conosco, festejar conosco, mas não só isso. Também é levar isso para a cisgeneridade: conhecer e divulgar nossos artistas, nossa arte, nossa produção, nosso trabalho, nosso afeto. É educar, contratar e incentivar a educação e o trabalho de pessoas trans. É agir em prol da equidade.
Sim, vamos mudar essa realidade.
O que você sonha para o futuro da população trans?
Sonho que o movimento social organizado não seja mais necessário. Porque isso implica dizer que o Estado cumpriu sua obrigação de criar políticas públicas que garantiram a dignidade de nossa população.
Enquanto isso não acontece, eu acredito na capacidade das pessoas trans se organizarem e dialogarem em seu território, na cidade, no estado e no país, sempre juntas e buscando o mínimo constitucional – a dignidade de ser e viver em solo brasileiro.