Para muitas pessoas trans, acessar um consultório ginecológico ainda significa atravessar um território de medo, constrangimento e violência institucional. Relatos de desrespeito ao nome social, questionamentos invasivos, recusa de atendimento e despreparo profissional fazem com que exames de rotina sejam adiados — ou nunca realizados. O resultado é o afastamento sistemático dessa população dos serviços de saúde.
Segundo levantamento publicado em 2021 pela Revista Estudos Transviades, em parceria com a organização Raça e Igualdade, 47,6% dos homens trans e pessoas transmasculinas entrevistadas não costumam ir ao ginecologista. O principal motivo apontado é a transfobia enfrentada tanto na rede pública quanto na privada. Longe de casos isolados, os dados revelam um problema estrutural.
É nesse contexto que surge Querido Gineco, uma HQ que transforma denúncias em narrativa gráfica e dá visibilidade a uma violência ainda naturalizada na medicina.
Relatos ilustrados denunciam violências estruturais
Querido Gineco reúne 13 histórias reais de pessoas cisgênero e, principalmente, de pessoas transgênero, que narram experiências de violência, negligência e desumanização em atendimentos ginecológicos. O livro foi produzido pela artista não-binária Lua Mota, conhecida artisticamente como LittleGoat, e realizado por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.
Para construir a obra, a autora analisou cerca de 300 relatos, reunidos a partir de formulários e comentários em redes sociais. A leitura desse material revelou padrões recorrentes de exclusão, especialmente relacionados à falta de respeito básico nos atendimentos.
“Muitas pessoas têm suas identidades invalidadas logo no momento do cadastro”, relata.

Mesmo com a Portaria nº 1.820, em vigor desde 2009, que garante o uso do nome social no SUS, a violação desse direito segue sendo uma prática.
Medo que afasta e exames adiados por anos
A abertura do livro traz um relato contundente da médica Carolina Rabello, especialista em saúde LGBTQIAPN+, que afirma atender pacientes que passaram mais de dez anos sem realizar exames ginecológicos de rotina devido às dificuldades de acesso a serviços de saúde.
Para Lua Mota, o medo é um dos principais fatores que explicam esse afastamento.
“Muitas pessoas trans acabam não querendo ir ao ginecologista por receio de como o médico vai olhar para o corpo delas, de como serão tratadas, se vão sofrer transfobia”, afirma.
Esse medo não nasce do nada, mas de experiências repetidas de violência simbólica e institucional.
Barreiras burocráticas também produzem exclusão
Além da violência direta, pessoas trans enfrentam entraves administrativos. Sistemas de agendamento que aceitam apenas a categoria “sexo feminino” dificultam ou impedem o acesso de homens trans com nome e gênero retificados, mulheres trans e travestis não retificadas, além de pessoas não-binárias.
A ADPF 787, julgada pelo STF, busca enfrentar esse problema. Ainda assim, relatos de sistemas desatualizados seguem sendo comuns. Também não é raro que profissionais afirmem que pessoas trans “não precisam” de atendimento ginecológico — como relata uma mulher trans logo no primeiro capítulo do livro.
Formação universitária ainda falha na preparação para o atendimento de pessoas trans
As falhas no atendimento também refletem lacunas na formação acadêmica. Um mapeamento feito em 2024, pela Revista Brasileira de Estudos de Homocultura analisou, de forma qualitativa e quantitativa, os currículos de 16 universidades federais da região Sudeste do Brasil e identificou que apenas cinco instituições apresentam disciplinas ou conteúdos que abordam a saúde de pessoas trans e travestis.
Ao todo, foram encontradas nove disciplinas com essa temática. No entanto, nenhuma é obrigatória. Todas são ofertadas como matérias optativas ou eletivas, o que evidencia a ausência de uma política institucional consistente para preparar profissionais da saúde para atender essa população.
O estudo analisou matrizes curriculares e ementas de cursos como Medicina e Enfermagem. Mesmo onde o tema aparece, ele costuma estar diluído em conteúdos amplos, sem aprofundamento sobre práticas de cuidado, acolhimento e especificidades dos corpos trans.
“Existem profissionais que nunca estudaram nada sobre a comunidade trans durante toda a faculdade”, afirma Lua Mota. “Dependendo de onde esse profissional está inserido, ele pode nunca ter contato com pessoas trans no dia a dia. Como alguém assim vai conseguir examinar nossos corpos com responsabilidade?”
Quadrinhos como denúncia, cuidado e pertencimento
Mais do que denunciar, Querido Gineco também busca incentivar o autocuidado e o exercício de direitos. Para a autora, a linguagem dos quadrinhos cria identificação e fortalece a sensação de pertencimento.
“O direito à saúde é garantido pela Constituição, mas a gente sabe que isso não se concretiza para todo mundo”, afirma.
Desde 2020, Lua Mota publica tirinhas sobre sua vivência como pessoa trans em seu perfil no Instagram. O trabalho deu origem ao livro Não-binária, apenas (2024), uma autobiografia em quadrinhos sobre sua experiência enquanto pessoa não-binária. Segundo a artista, muitas pessoas usaram suas tirinhas como apoio para sair do armário, compartilhando os desenhos com familiares e amigos.

Tornar visível para transformar
O objetivo central de Querido Gineco é mostrar que violências e negligências médicas enfrentadas por pessoas trans não são aceitáveis nem individuais, mas parte de uma estrutura que precisa ser transformada.
Ao reconhecer experiências semelhantes, leitoras e leitores podem se sentir fortalecidos para denunciar e buscar apoio. “Quando você lê o relato de alguém muito parecido com você, entende que não está sozinho”, diz Lua. “Isso ajuda a transformar o que era só dor em algo maior.”
Livro: Querido Gineco
Onde comprar: www.littlegoat.art/
Canais para denunciar violências em atendimentos de saúde
Disque Saúde 136 – Ouvidoria-Geral do SUS (gratuito e nacional)
Disque 100 – Disque Direitos Humanos (24h, gratuito e confidencial)
Ouvidoria da unidade de saúde (UBS, hospitais, maternidades)
Defensoria Pública – Alguns municípios possuem núcleos de direitos LGBTQIAPN+