Fazer um jornalismo que compreenda as pessoas trans enquanto uma população digna de direitos vai muito além de perguntar pronomes em entrevistas, pautar casos de transfobia, divulgar dados de assassinatos, surfar numa trend ou outra que viralizou nas redes sociais ou produzir uma reportagem por ano no mês da visibilidade trans.
Comunicar sobre pessoas trans exige sair do raso. É necessário mergulhar fundo na interseccionalidade entre gênero, raça, classe social e entender que corpos também são territórios em disputa e que produzir informação para uma população historicamente invisibilizada pela mídia brasileira é, também, sobre reparação. Ao disputar narrativas e romper silêncios, é que o jornalismo se torna uma ferramenta indispensável para o fortalecimento da luta trans.
É justamente a partir dessa compreensão que a Transmídia nasce e se sustenta. Bebemos das fontes de quem há décadas produz contranarrativas no jornalismo feminista, negro, periférico, local e independente. E, assim, foi possível imaginar e concretizar a existência do primeiro portal de notícias do Brasil composto inteiramente por uma equipe de pessoas trans e travestis, especializada em produzir conteúdos que informam, impactam e mobilizam a nossa comunidade.
Chegar até aqui não seria possível sem veículos como a Revista AzMina, que assina esse texto conosco, Gênero e Número, Nós Mulheres da Periferia, Portal Catarinas, Agência Mural, Nonada Jornalismo, Periferia em Movimento, Alma Preta, Agência Diadorim, entre tantos outros que abriram caminhos para que chegássemos.
As trajetórias dessas iniciativas jornalísticas reafirmam o que nos orienta: pautar um jornalismo decolonial e que defenda os direitos humanos. Essa é uma tarefa coletiva. Cobrir com responsabilidade os impactos da misoginia e do racismo, assim como da transfobia, seja em nível nacional ou local, nos grandes centros urbanos, nas zonas rurais, nas favelas e periferias, nos campos ou aldeias, é defender a própria democracia. E deveria ser obrigação do jornalismo.
Pautar gênero de maneira ampla e constante não é algo descolado de todas essas realidades, é essencialmente parte de todas elas. E as mudanças precisam começar internamente, com pessoas trans nas equipes de jornalismo, escrevendo sobre suas próprias vidas e diversos outros assuntos.
A transfobia não deixa barato
Também é preciso dizer que essa é uma batalha árdua. Nossas equipes sabem que pautar os direitos da população trans é uma escolha que tem custos. Discursos de ódio, ataques digitais, tentativa de hackeamento e baixa entrega e engajamento em decorrência do cancelamento das big techs são alguns dos exemplos que podemos citar.
Mas há muito poder na mobilização: quando unimos nossas forças e lutas, vamos além, por isso decidimos escrever este editorial em conjunto. AzMina sempre pautou as violências que atingem todas as pessoas, cis ou trans, de qualquer orientação sexual por decorrência do gênero.
Cada vez mais vemos a necessidade de enfrentar a ofensiva transfóbica que invadiu os debates sobre gênero. Sabemos que o Brasil é o país que mais mata trans e travestis no mundo e, desde 2018, estamos assistindo a agressões em massa: no Congresso Nacional, nas redes sociais e no cotidiano. É terrível constatar isso; pior ainda seria nos calarmos. Contudo, apesar das dificuldades que pessoas trans enfrentam, não focamos no sofrimento, mas exaltamos suas vidas e trajetórias.
Nosso jornalismo incomoda, assim como impacta a sociedade. Quando falamos de novas perspectivas sobre pessoas trans — na arte, na cultura, nas novelas, produzindo dados e pesquisas, se formando mestres, doutoras, pós-doutoras, ocupando a política brasileira, ganhando Grammys, forjando o ferro e mirando alto — ganhamos todas como sociedade.
Feminismo transinclusivo
AzMina entende que o verdadeiro feminismo é transinclusivo, ou nem feminismo é. AzMina tem pessoas trans em seu time, seja de colunistas ou de jornalistas, desde sua fundação e reflete diariamente sobre como colocar o transfeminismo em prática no seu fazer jornalístico.
Uma dessas reflexões aconteceu em 2021, quando entendemos que o feminismo não é só para mulheres, porque são as mesmas violências de gênero que afetam as vidas de pessoas não binárias e transmasculinas e decidimos levar essa reflexão para o nosso dia a dia. Sabemos que o feminismo tem sido um campo de disputa — levando à exclusão e a violências — e fazemos questão de reforçar nosso posicionamento.
Jornalismo com protagonismo trans
Nesse mesmo caminho, a Transmídia, fundada e liderada integralmente por pessoas trans, majoritariamente mulheres trans e travestis negras, parte do entendimento de que produzir um jornalismo que valorize, respeite e impacte positivamente a população trans, em toda a sua diversidade e interseccionalidade, exige garantir o protagonismo nas pautas, decisões editoriais e processos de produção.
A Transmídia prioriza a atuação de jornalistas, colunistas e fontes trans, além de articular e promover formações com organizações e lideranças do movimento trans, em âmbito nacional e internacional. Enquanto veículo de notícias comprometido com a defesa dos direitos da população trans, a Transmídia também atua de forma ativa no enfrentamento à desinformação, que, nos últimos anos, tem nossa comunidade como principal alvo.