A desinformação, o que chamamos de fake news, por si só já é uma rasteira bem dada no jornalismo. Às vezes, a gente até bambeia, mas não cai. Não caímos porque sabemos que nosso trabalho é importante e que os sujeitos que as produzem têm a intenção clara de gerar um dano coletivo, com foco em atacar pessoas trans e travestis, mulheres e pessoas negras. E, para muitos de nós que escrevem na tentativa de acrescentar na luta pelos direitos humanos, cair não é uma opção.
Mas a rasteira virou um soco no estômago. É assim que tenho me sentido ao acompanhar a sequência de conteúdos difamatórios e desinformativos produzidos por respeitados jornais brasileiros sobre a deputada federal Erika Hilton (PSOL).
Começo dizendo que essa coluna não é imparcial — aprendi com Fabiana Moraes que, na verdade, a imparcialidade é uma falácia —, mas você também não encontrará fanatismo por aqui. Trago minha opinião fundada no pilar mais básico de um jornalismo ético: a apuração e a verdade com os fatos.
O caso Erika Hilton
Erika Hilton é uma figura pública, ou seja, é mais do que normal e apropriado que jornalistas contestem tudo aquilo que envolve a sua atuação como parlamentar. Não há nada de errado em questionar quais são as atribuições de seus secretários, assim como não é errado solicitar explicações sobre a forma com que a deputada tem utilizado recursos públicos. Isso faz parte da nossa profissão.

O que não faz parte é dedicar tempo e esforços em pautas que geram desinformação e aumentam discursos de ódio. É repugnante ver manchetes que imputam verdades sem que elas sejam comprovadamente verdadeiras.
Explico melhor: o jornal Metrópoles optou por destacar apenas uma das atividades dos secretários parlamentares de Erika Hilton, acusando-os de serem pagos com verba do gabinete para fazerem apenas sua maquiagem, sem considerar a atuação diária no assessoramento das agendas da deputada. Ainda assim, a manchete escolhida foi: “Erika Hilton paga seus dois maquiadores com verba da Câmara”.
O mesmo portal repercutiu, com tom sensacionalista, que “Erika Hilton teve reembolso de R$ 24,7 mil por cirurgia no nariz”. A manchete gera uma desconfiança inicial ao leitor que, num primeiro momento, interpreta como corrupção. Só depois de um texto você encontra no texto que o reembolso foi referente à parte funcional de uma cirurgia para tratar uma sinusite crônica, com laudos médicos atestando a necessidade do procedimento. A parte estética da cirurgia, que não foi custeada com recursos públicos, foi paga do próprio bolso pela parlamentar.
Vale destacar que o Metrópoles é um dos veículos jornalísticos que mais utilizam publicidades contendo conteúdos falsos sobre saúde, como mostrou uma pesquisa do Aos Fatos. Jornalismo que lucra com desinformação: contraditório, não acham?
Duas notícias que parecem ser “bombásticas” sobre a mesma deputada em menos de dois dias. Não foi algo pensado da noite para o dia, a produção de notícias leva tempo. Da reunião de pauta à apuração, podem ser semanas. O que nos leva a pensar que há um interesse em promover conteúdos polêmicos sobre Erika Hilton.
É preciso afirmar que cada palavra que integra um título é resultado de uma escolha. A abordagem que a reportagem seguirá também é uma escolha e toda escolha tem uma consequência. Vale lembrar que o caso de Erika não é isolado. Há uma negligência profissional em curso que não é nova, mas que hoje tem um impacto social muito maior em termos de alcance. Nos últimos meses, vivenciamos duas situações em que a busca por likes, viralização e dinheiro se fez maior do que a ética jornalística.
Basta voltarmos para setembro de 2024, quando o jornal Metrópoles expôs o nome de Anielle Franco na denúncia de assédio sexual contra o ex-ministro Silvio Almeida, quebrando o protocolo básico de não exposição da vítima.
Ou quando, em junho deste ano, diversos jornais divulgaram erroneamente dados do Censo 2022 do IBGE afirmando que religiões de matriz africana têm maioria branca, ignorando qualquer compromisso com a população negra brasileira, composta por pessoas pardas e pretas, que representam 50,2% dos praticantes do Candomblé e da Umbanda, segundo a pesquisa.
A dúvida que fica: a quem interessa fazer um jornalismo que desinforma e desumaniza?