Você deve estar se perguntando: por que estou repercutindo o assassinato de um extremista dos Estados Unidos? A resposta é mais complexa do que eu gostaria. Nesta coluna, buscarei mostrar o lobby antitrans que está em curso, importado dos Estados Unidos, com reflexos diretos e violentos no Brasil.
Quem foi Charlie Kirk
Mas vamos do começo. Charles Kirk, de 31 anos, era um extremista estadunidense, aliado de Donald Trump e fundador da Turning Point, organização que promove o conservadorismo em escolas e universidades do país. Kirk construiu sua carreira com base em conteúdos e conspirações transfóbicas, racistas, misóginas e até nazistas, reunindo milhares de seguidores e apoiadores nas redes sociais.
No mês passado, em 10 de setembro, ele foi alvejado enquanto participava de um evento na Universidade de Utah Valley. Tyler Robinson, ex-aluno, é o principal suspeito do assassinato e, segundo a Promotoria estadual de Utah, teria confessado o crime em uma mensagem deixada para a colega de quarto e suposta parceira romântica, uma mulher trans.
É aqui que a situação se torna alarmante. As autoridades não apontaram nenhuma evidência da participação da companheira de Robinson no assassinato, mas, ainda assim, jornais de todo o mundo, incluindo a mídia brasileira, passaram a publicar matérias sensacionalistas, com clara busca por clickbait, insinuando que a aproximação do suspeito com uma pessoa trans o teria levado a cometer o crime.
O bode expiatório perfeito. A narrativa infundada que faltava: há uma pessoa trans na história.

Manchetes de matérias retiradas do UOL e da Jovem Pan, respectivamente
É curioso observar que os títulos dessas matérias sequer dialogam com o conteúdo dos textos, que se concentram na trajetória de Kirk e Robinson, não na “parceira trans”. As reportagens de veículos como UOL, Jovem Pan e Brasil Paralelo mencionam que ela não foi acusada de nenhum crime e que, inclusive, está cooperando com as investigações. Ou seja, a falta de ética jornalística é escancarada, transformando pessoas trans em iscas para cliques e reforçando estigmas.
Esse é mais um exemplo de como o ódio à população trans é mobilizado para gerar sentimentos de indignação, repulsa e medo, alimentando um pânico moral em torno de nossas existências. Não por acaso, extremistas como a apoiadora de Trump Laura Loomer, após o assassinato de Kirk, declararam em suas redes que o movimento trans deveria ser classificado como “terrorista” nos Estados Unidos, defendendo que a transição de gênero seja criminalizada.
Convenhamos: é irônico que pessoas que lutam apenas pelo direito de existir sejam chamadas de “terroristas” pelas mesmas figuras que incentivam o genocídio em Gaza. A escolha desse discurso não é coincidência.
As ofensivas contra a população trans não são novidade. A história nos mostra isso. Mas as formas de mobilizar espaços legislativos, eleitorais e econômicos, com investimentos milionários em campanhas desinformativas às custas de vidas trans, se tornam cada vez mais sofisticadas, perigosas e profundas.
A agenda antigênero que se espalha pelo mundo também tem ganhado força no Brasil. É o que revela o Dossiê Matria: o lobby antitrans disfarçado de defesa das mulheres e crianças, lançado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). O documento evidencia a conexão de organizações como a Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil com redes internacionais da ultradireita.
“Mostramos que há uma articulação perigosa entre discursos supostamente feministas e práticas que reforçam a necropolítica de gênero, desumanizando pessoas trans sob a aparência de defesa e proteção das mulheres”, afirma Bruna Benevides, presidenta da ANTRA.
De Charles Kirk à Matria, falamos aqui de um sistema cujo objetivo é retirar direitos da população trans, não apenas com o investimento em discursos de ódio e desinformação, mas também com a inserção de agendas antitrans em instituições brasileiras, como o Legislativo. Trata-se do que chamamos de lawfare e litigância predatória: o uso de instrumentos jurídicos como ferramentas de perseguição.
Temos visto isso acontecer em diferentes frentes: na saúde, com a resolução do CFM; na política, com centenas de projetos de lei anti-LGBT tramitando nas Assembleias Legislativas, na Câmara e no Senado; no esporte, com tentativas de barrar atletas trans; na educação, com cartilhas contra a chamada “ideologia de gênero”; e nas eleições, com candidatos que fazem da perseguição à população trans sua principal estratégia eleitoral.
Resta a constatação: enfrentar a agenda antigênero é defender a própria democracia. Nenhum projeto democrático sobrevive à custa da exclusão e do silenciamento de parte da população. Cabe às instituições, à comunicação e aos movimentos sociais garantir o direito das pessoas trans de existir, participar e comunicar. É isso que mantém a democracia brasileira plural, viva e comprometida com os direitos humanos.