Desde Titan (2021), seu álbum de estreia, Dan Abranches se mostra um artista interessado no que o som pode conter — e não apenas no que pode expressar. A estrutura de suas músicas sempre foi menos sobre chegar a algum lugar e mais sobre o percurso. Em Titan, esse percurso era marcado por uma eletrônica íntima, com beats sintéticos, harmonias suspensas e vocais dobrados que soavam quase como pensamento em loop.
Antes, com o EP Flor de Laranjeira (2020), o cantor alcançou o que só posso chamar de uma sofisticação autoral rara. Agora, em Agridoce, o trajeto continua, mas o espaço muda: sai o quarto, entra o estúdio; sai o impulso, entra o desenho; sai a experimentação e se estabelece o controle.
Os sabores de Agridoce

As escolhas estéticas feitas por Dan são agora mais amplas, mas também mais intencionais. Os arranjos são mais complexos, as cordas dançam com o digital, uma acústica deliciosamente nauseante. E apesar da instrumentação orgânica, o que define o disco não é a paleta sonora, e sim a maneira como ela é distribuída no tempo. Agridoce se organiza pela suspensão — não demonstra pressa, não grita sua presença a cada segundo; e quando se intensifica, é para criar tensão — não para chamar atenção. Um campo de escuta e narrativa sonora que valoriza a pausa, o recuo, a frase que não se completa — e, em alguns momentos, até mesmo a contemplação do silêncio, por assim dizer.
É o caso da belíssima “Água é Fluxo”, que nos suspende à beira-mar e marca um ponto de virada em direção à parte mais agri — e menos doce — do álbum, onde o projeto realmente mostra a que veio.
“Maçã”, assim como o Dan dos tempos de Ruby, evita resoluções fáceis, preferindo deixar a harmonia lacrimejando no ar. É de uma melancolia tão palpável que chega a ser desesperadora — provavelmente minha favorita do álbum. “Jurema”, talvez uma das melhores escritas do cantor até aqui, soa como se a saudade e o desejo tivessem tido uma criança em forma de música. É o momento mais espiritual de Agridoce e revela uma faceta nova, ainda que estranhamente familiar, de Dan.
E, como se encerrasse uma trilogia contida dentro do álbum, “Tristeza Senhora” persiste nessa melancolia abranchiana — agora em busca de um último suspiro e fôlego para continuar. Uma suspensão necessária, antes de Agridoce nos levar ao seu excelente terceiro ato, onde Dan parece se transmutar em sua forma final: mais direto, mais agressivo e, ainda assim, profundamente sofisticado — uma versão maior do que ele já havia esboçado em músicas como “Maracujá” (2020), “Dark Cloud” (2021) e “Ando” (2024).
“Soul”, uma das músicas mais ambiciosas do projeto, soa como uma síntese de tudo que Dan aprendeu em sua trajetória até aqui. Sintetizadores, guitarras, uma percussão que preenche o espaço como o ar que a gente respira — e tudo isso com a voz do músico embalada por uma raiva blasé e deliciosa. Sexy na medida. É uma energia que se mantém em “Trans-Cedental”. Na conclusão do álbum, a calmaria reflexiva retorna com o interlúdio “Blue” e a linda “Nem Todo Ouro”, que mesmo no fim, vem carregada de deslocamento: é como se o cantor estivesse sempre à beira de perder o chão, uma escolha recorrente de Dan — manter-se e manter o ouvinte em trânsito. Um charme.
As parcerias ao longo do projeto merecem destaque. “Trans-Cedental”, com WinniT, reafirma por que ele é um dos nomes mais inventivos do hip hop nacional, e ver Dan flertando com o rap é algo divertido — e que funciona. “Melanina”, com Elaine Augusta, é uma das faixas mais gostosas de 2025. E, claro, a já citada “Nem Todo Ouro”, com Gavi, é uma verdadeira joia na discografia do cantor — algo que já se anunciava quando ela era apenas um teaser nas redes sociais. Se algo me deixou com uma pulga atrás da orelha, talvez tenha sido a ausência de “Ando”, single de 2024 — mas, diante da construção estética e narrativa do álbum, compreendo a escolha.
Agridoce não se impõe como um álbum de conceito fechado. Ele não gira em torno de um tema, mas de um estado. Nesse sentido, o título serve como chave de escuta: o agridoce não é um sentimento que se descreve, é um efeito que se constrói. Está nas escolhas harmônicas, nos timbres secos, nas viradas que não acontecem. O disco é menos uma coleção de faixas e mais uma ambiência sustentada por contraste. E é justamente isso que faz dele uma escuta tão rica.
Se Titan era um gesto de descoberta — quase um diário sonoro —, em Agridoce Dan Abranches parece saber exatamente o que deseja deixar em aberto. Ainda assim, o disco não é imune a ruídos: a primeira parte soa menos coesa, com faixas como “Ela”, “Pra Te Ver” e “Higher” competindo por protagonismo — como se disputassem espaço antes de entenderem que pertencem ao mesmo corpo.
A própria faixa-título, “Agridoce”, soa como uma prévia desnecessária de tudo que ainda está por vir, tentando antecipar um percurso que funciona melhor quando se revela aos poucos. Diferente do que acontece na segunda metade do álbum, onde tudo ganha amarra, direção e intenção. Mas é justamente essa curva — de dispersão a precisão — que reforça o modo como Agridoce escuta antes de responder, contorna antes de dizer. E talvez por isso, mesmo com mais instrumentos, mais produção e mais estrutura, soe ainda mais íntimo.
Um segundo disco que não tenta provar nada — apenas sustentar o que já está claro: forma também é afeto; escuta também é composição. Dan Abranches é, sem dúvida alguma, não apenas um dos maiores representantes da arte trans no Brasil — é um dos artistas mais interessantes da música brasileira contemporânea.
Ótimo.